U M A
V I A G E M
by Nelson Geromel
O retorno
Já era
noite, eu (estava) sentado naquele banco de madeira dura da Imigração
Costarriquenha. Estava duro com apenas uma troca de roupa numa mochila de
nylon (knapsac); o resto tinha ficado no hotel em Manágua. Para conseguir
visto de turista na Costa Rica eu precisaria de dois dólares, que não tinha.
Naquele instante eu achava o maior absurdo as fronteiras, as alfândegas e
principalmente a cobrança de dois dólares por visto de entrada.
Resolvi batalhar o dinheiro do outro lado da alfândega, por onde as pessoas
estavam saindo do país. Minha inibição é que me matava. Ficava
ensaiando o ataque, o turista acabava indo embora e eu ficava esperando.
Tomei coragem e aproximei-me de um casal de velhos; pareciam americanos.
Perdon pero
o señor puede dar-me dois dólares para la visa tentei, e o velho me disse um
não antes que acabasse de falar. Isso me desmoronou, me brochou pelo
menos por uma hora. Aprendi, no entanto, que quando não estou a fim de
atender alguém, digo não antes que a pessoa termine de falar. Quase não
falha. Deviam ser mais ou menos 23 horas quando parou uma caminhonete
rebocando uma moto de competição. Desceu um rapaz, e eu não pensei duas
vezes, ataquei o cara:
“ Olá, soy brasileño y necesito de 2 dólares para
la visa, usted puede conseguir.”
Si, si.- O
cara me deu os dois dólares sem pestanejar, como se estivesse sendo
assaltado. Ai eu relaxei e perguntei se ele era corredor. Ele respondeu-me
que sim, que participava de competições internacionais de motociclismo e que
conhecia muito um conterrâneo meu, Adu Celso. Confesso que, naquela época,
eu não me interessava muito por motociclismo, mas, para ser cordial com o
cara que tinha conseguido o meu visto, resolvi inventar. Disse que
conhecia muito bem o Adu, apesar de não o ver já ha algum tempo, pois estava
viajando pelo mundo, e o cara ficou maravilhado. Contou-me que era de
San José e estava indo a Manágua para uma competição internacional. Após um
bom papo ele se despediu e seguiu viagem. Voltei ao meu banco duro e resolvi
tirar uma soneca.
Acordei
antes do sol, com um agente alfandegário oferecendo-me um café. Às 6 horas
abriram a fronteira e os carros começaram a chegar. Logo encostou um furgão
branco, com placa de New Jersey, dirigido por um gringo barbudo. O gringo
desceu do carro, deu a volta no furgão e abriu a porta lateral. De lá saiu
um cão para fazer xixi e cocô. Depois voltou e colocou o cão novamente no
carro. Pegou o passaporte e foi tirar o visto. Na volta perguntei-lhe
em inglês se ia a San José, e ele disse que sim.
Foi uma
carona fácil. Difícil foi conversar com o gringo. Eu entendia mal o
inglês, e ele não falava espanhol; mas por gestos e algumas palavras
conseguimos nos entender. Ele me disse ser Húngaro americano, estava indo ao
Panamá, porém pretendia chegar Amazônia. Minha cabeça começou a trabalhar a
mil por hora, pois era a minha chance de voltar ao Brasil. Já estava cheio
de viajar duro; estava cansado de aventuras, de incertezas.
Paramos
para um lanche na estrada e para o cão fazer xixi. O gringo que se
chamava Jozsef Sereje, queria aprender a pedir comida. - Señorita, nosotros
queremos huevos com tocino. Dos, gracias. Ficou feliz quando viu a garçonete
trazer o que havíamos pedido.
Na
seqüência da viagem, contei-lhe que era do Brasil, que estava voltando, que
já estivera na Amazônia. Ai o gringo começou a fazer perguntas. Como eram os
índios, se era possível viver com eles. Eu contei-lhe alguma coisa que havia
lido e ele foi se entusiasmando. Quando paramos para almoçar, ele me
convidou para seguir com ele na viagem.
Por mim
tudo bem, eu disse.
À noitinha
chegamos na fronteira com o Panamá. Mais dois dólares; só que agora eu tinha
o gringo para bancar.
Havia um
problema, no entanto: o cão não poderia entrar, pois um decreto do
Ministério da Saúde colocava todos os animais domésticos em quarentena.
A solução foi dormimos ali na alfândega.
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