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O retorno

 

Já era noite, eu (estava) sentado naquele banco de madeira dura da Imigração Costarriquenha. Estava duro com apenas uma troca de roupa numa mochila de nylon (knapsac); o resto tinha ficado no hotel em Manágua. Para conseguir visto de turista na Costa Rica eu precisaria de dois dólares, que não tinha. Naquele instante eu achava o maior absurdo as fronteiras, as alfândegas e principalmente a cobrança de dois dólares por visto de entrada.  Resolvi batalhar o dinheiro do outro lado da alfândega, por onde as pessoas estavam saindo do país. Minha inibição é que me matava.  Ficava ensaiando o ataque, o turista acabava indo embora e eu ficava esperando.  Tomei coragem e aproximei-me de um casal de velhos; pareciam americanos.

Perdon pero o señor puede dar-me dois dólares para la visa tentei, e o velho me disse um não antes que acabasse de falar.  Isso me desmoronou, me brochou pelo menos por uma hora.  Aprendi, no entanto, que quando não estou a fim de atender alguém, digo não antes que a pessoa termine de falar. Quase não falha.  Deviam ser mais ou menos 23 horas quando parou uma caminhonete rebocando uma moto de competição. Desceu um rapaz, e eu não pensei duas vezes, ataquei o cara:

“ Olá, soy brasileño y necesito  de  2 dólares para la visa, usted puede conseguir.”

Si, si.- O cara me deu os dois dólares sem pestanejar, como se estivesse sendo assaltado. Ai eu relaxei e perguntei se ele era corredor. Ele respondeu-me que sim, que participava de competições internacionais de motociclismo e que conhecia muito um conterrâneo meu, Adu Celso. Confesso que, naquela época, eu não me interessava muito por motociclismo, mas, para ser cordial com o cara que tinha conseguido o meu visto, resolvi inventar.  Disse que conhecia muito bem o Adu, apesar de não o ver já ha algum tempo, pois estava viajando pelo mundo, e o cara ficou maravilhado.  Contou-me que era de San José e estava indo a Manágua para uma competição internacional. Após um bom papo ele se despediu e seguiu viagem. Voltei ao meu banco duro e resolvi tirar uma soneca.

Acordei antes do sol, com um agente alfandegário oferecendo-me um café. Às 6 horas abriram a fronteira e os carros começaram a chegar. Logo encostou um furgão branco, com placa de New Jersey, dirigido por um gringo barbudo. O gringo desceu do carro, deu a volta no furgão e abriu a porta lateral. De lá saiu um cão para fazer xixi e cocô. Depois voltou e colocou o cão novamente no carro. Pegou o passaporte e foi tirar o visto.  Na volta perguntei-lhe em inglês se ia a San José, e ele disse que sim.

Foi uma carona fácil. Difícil foi conversar com o gringo.  Eu entendia mal o inglês, e ele não falava espanhol; mas por gestos e algumas palavras conseguimos nos entender. Ele me disse ser Húngaro americano, estava indo ao Panamá, porém pretendia chegar Amazônia. Minha cabeça começou a trabalhar a mil por hora, pois era a minha chance de voltar ao Brasil. Já estava cheio de viajar duro; estava cansado de aventuras, de incertezas.

Paramos para um lanche na estrada e para o cão fazer xixi.  O gringo que se chamava Jozsef Sereje, queria aprender a pedir comida. - Señorita, nosotros queremos huevos com tocino. Dos, gracias. Ficou feliz quando viu a garçonete trazer o que havíamos pedido.

Na seqüência da viagem, contei-lhe que era do Brasil, que estava voltando, que já estivera na Amazônia. Ai o gringo começou a fazer perguntas. Como eram os índios, se era possível viver com eles. Eu contei-lhe alguma coisa que havia lido e ele foi se entusiasmando. Quando paramos para almoçar, ele me convidou para seguir com ele na viagem.

Por mim tudo bem, eu disse.

À noitinha chegamos na fronteira com o Panamá. Mais dois dólares; só que agora eu tinha o gringo para bancar.

Havia um problema, no entanto: o cão não poderia entrar, pois um decreto do Ministério da Saúde colocava todos os animais domésticos em quarentena.  A solução foi dormimos ali na alfândega.

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