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A VIAGEM

U M A  V I A G E M

by   Nelson Geromel

O retorno

Já era noite, eu (estava) sentado naquele banco de madeira dura da Imigração Costarriquenha. Estava duro com apenas uma troca de roupa numa mochila de nylon (knapsac); o resto tinha ficado no hotel em Manágua. Para conseguir visto de turista na Costa Rica eu precisaria de dois dólares, que não tinha. Naquele instante eu achava o maior absurdo as fronteiras, as alfândegas e principalmente a cobrança de dois dólares por visto de entrada.  Resolvi batalhar o dinheiro do outro lado da alfândega, por onde as pessoas estavam saindo do país. Minha inibição é que me matava.  Ficava ensaiando o ataque, o turista acabava indo embora e eu ficava esperando.  Tomei coragem e aproximei-me de um casal de velhos; pareciam americanos.
“Perdon pero o señor puede dar-me dois dólares para la visa” tentei, e o velho me disse um não antes que acabasse de falar.  Isso me desmoronou, me brochou pelo menos por uma hora.  Aprendi, no entanto, que quando não estou a fim de atender alguém, digo não antes que a pessoa termine de falar. Quase não falha.  Deviam ser mais ou menos 23 horas quando parou uma caminhonete rebocando uma moto de competição. Desceu um rapaz, e eu não pensei duas vezes, ataquei o cara:
“ Olá, soy brasileño y necesito  de  2 dólares para la visa, usted puede conseguir.”
Si, si.- O cara me deu os dois dólares sem pestanejar, como se estivesse sendo assaltado. Ai eu relaxei e perguntei se ele era corredor. Ele respondeu-me que sim, que participava de competições internacionais de motociclismo e que conhecia muito um conterrâneo meu, Adu Celso. Confesso que, naquela época, eu não me interessava muito por motociclismo, mas, para ser cordial com o cara que tinha conseguido o meu visto, resolvi inventar.  Disse que conhecia muito bem o Adu, apesar de não o ver já ha algum tempo, pois estava viajando pelo mundo, e o cara ficou maravilhado.  Contou-me que era de San José e estava indo a Manágua para uma competição internacional. Após um bom papo ele se despediu e seguiu viagem. Voltei ao meu banco duro e resolvi tirar uma soneca.
Acordei antes do sol, com um agente alfandegário oferecendo-me um café. Às 6 horas abriram a fronteira e os carros começaram a chegar. Logo encostou um furgão branco, com placa de New Jersey, dirigido por um gringo barbudo. O gringo desceu do carro, deu a volta no furgão e abriu a porta lateral. De lá saiu um cão para fazer xixi e cocô. Depois voltou e colocou o cão novamente no carro. Pegou o passaporte e foi tirar o visto.  Na volta perguntei-lhe em inglês se ia a San José, e ele disse que sim.
Foi uma carona fácil. Difícil foi conversar com o gringo.  Eu entendia mal o inglês, e ele não falava espanhol; mas por gestos e algumas palavras conseguimos nos entender. Ele me disse ser Húngaro americano, estava indo ao Panamá, porém pretendia chegar Amazônia. Minha cabeça começou a trabalhar a mil por hora, pois era a minha chance de voltar ao Brasil. Já estava cheio de viajar duro; estava cansado de aventuras, de incertezas. Paramos para um lanche na estrada e para o cão fazer xixi.  O gringo que se chamava Jozsef Sereje, queria aprender a pedir comida. - Señorita, nosotros queremos huevos com tocino. Dos, gracias. Ficou feliz quando viu a garçonete trazer o que havíamos pedido.
Na seqüência da viagem, contei-lhe que era do Brasil, que estava voltando, que já estivera na Amazônia. Ai o gringo começou a fazer perguntas. Como eram os índios, se era possível viver com eles. Eu contei-lhe alguma coisa que havia lido e ele foi se entusiasmando. Quando paramos para almoçar, ele me convidou para seguir com ele na viagem.Por mim tudo bem, eu disse. À noitinha chegamos na fronteira com o Panamá. Mais dois dólares; só que agora eu tinha o gringo para bancar. Havia um problema, no entanto: o cão não poderia entrar, pois um decreto do Ministério da Saúde colocava todos os animais domésticos em quarentena.  A solução foi dormimos ali na alfândega.
Pela manhã deixamos o cão na alfândega e fomos até a cidade mais próxima procurar um veterinário para autorizar a ida do cão até a cidade de Panamá. Conseguimos, porém deveríamos entregar o cão num canil na cidade do Panamá. Rodamos dia todo e nem almoçamos, pois havíamos feito um lanche grande na casa do veterinário, coisa do interior. Atravessamos  a  ponte  sobre o canal do Panamá e  para  mim foi emocionante, pois parecia um sonho quando era realidade. Levamos cão  para  o canil e fomos para um hotel.
Somente  Jozsef  se  registrou,  e eu fui logo tomar banho.  Enquanto ele tomava banho  dei  uma  checada no seu passaporte e vi que ele havia saído  dos  EUA  havia 5 dias e vinha direto para o Panamá.  Tinha ficado retido  2  dias  na Guatemala por causa do terremoto de Honduras.  Junto  ao  passaporte  tinha uns  800 dólares. Saímos  para  jantar e combinamos que no  dia  seguinte  iríamos verificar  saídas  para  a Colômbia por terra ou  por  mar,  mas levando o carro.
Descobrimos  logo  que  a rodovia PAN americana  não  unia  o  Panamá à Colômbia como mostrava em alguns mapas  e que o transporte por mar era caro. Fomos até  Puerto Cristóbal  Cólon  no lado atlântico, tentar um iate.  Só  tinha  para vender, e custavam caro. Tentamos passar o carro em troca, mas não conseguimos. Voltamos à cidade do Panamá e encontramos  um  peruano, por indicação de um cara  do  hotel, que poderia  comprar  o  carro. Mas para encontrar o  cara  foi  tudo preparado, pois o peruano não poderia aparecer em público.  Devia ser  traficante. Jozsef havia me mostrado uma Winchester que  ele tinha  escondida  no  carro  e que  havia  passado  por  todas  as alfândegas.  Porém, para vender o carro, ele precisava  desfazer-se dela.  Disse-lhe  para oferecer ao peruano e o  cara  quis,  pois estava  pagando pelo carro e pela arma 500 dólares.  Não  entendi muito.
Resolvemos  que  iríamos de avião a Medellín e de ônibus até Bogotá e novamente de avião até Letícia. Compramos  uma  gaiola  para transportar o  cão;  Jozsef  comprou também uma mochila e uma barraca. Voltamos ao hotel para  arrumar a  bagagem  e para levar o Dingo ao aeroporto.  Levamos  tudo para o aeroporto, compramos as passagens, entregamos a bagagem  e voltamos à cidade para entregar o carro. Retornamos  ao  aeroporto, pois viajaríamos às 10 da  noite  e fomos tomar um lanche no restaurante. Às 9 da noite, os  alto-falantes do aeroporto informaram que o vôo da “Aliança” para  Medellín só  decolaria às 7 da manhã.  Decidimos  ficar  no aeroporto.   Jozsef comprou um vinho chileno e sentamos na  sala de espera para beber, pois estava frio.
Encontramos  no aeroporto um canadense que havia  falado  conosco numa  loja na cidade. Soubemos que ele ia também para Medellín  O Canadense  se  chamava Michel e falava bem o  castelhano,  o  que facilitava   muito   o  papo  com  o  Jozsef também,   pois   não precisaríamos falar com gestos.  A  noite  foi  longa, apesar do vinho.  Eu  não  conseguia  dormir sentado. Incrível, pois eu estava acostumado a dormir de  qualquer forma. Acho que era a certeza da minha volta. Uma vez na  Colômbia, tudo  ficava mais fácil. Eu já estava viajando há 3  meses,  desde minha saída do Rio em novembro, minha primeira intenção era viver fora do  Brasil no Chile talvez, apesar do Pinochet, ou então nos EUA. Mas era tudo muito difícil, pois ao mesmo tempo eu queria andar, visitar muitos países.
Relembrei  minhas viagens de 72, dos hippies de Arambepe na Bahia. Eu estava lá, quando um amigo avisou-nos que havia repressão para limpar a praia. Foi um corre-corre  tremendo e conseguimos sair antes. Fomos para a entrada  e conseguimos uma carona na carroceria de um caminhão até Jequié. A idéia  era  passar o Carnaval no Rio. Nosso grupo era  de  12,  8 caras  e  4  garotas. Uma bagunça geral.  Muito  baseado  e batuque. À noitinha chegamos a Jequié; o pessoal se dividiu  para conseguir rango, depois um cara conseguiu uma casa vazia  para a  gente  dormir.  Às 3 da manhã a policia chegou e  tivemos  que sair  e dormir na estrada. Para facilitar as caronas, ficamos  em duplas, e marcamos com o pessoal nos encontramos em uma semana na Barra, no Rio. Eu  segui com um pernambucano Zé Antônio, o cara mais  preguiçoso que  eu já tinha visto. Para confirmar ele contou que no Rio  ele dormia  em  hospitais ou então ia lá para  comer,  simulando  uma visita, ou como paciente. Conseguimos  uma  carona  de caminhão até Muriaé.  No  caminho  o motorista  parou para jantar em Pedra Azul, Minas Gerais.  Como ele disse que dormiria até as 4 da manhã, aproveitamos para ir a zona ao lado do restaurante. Era um dia fraco para as meninas  e ai  foi  um  dia bom. Eu já conhecia Pedra  Azul,  na  ida,  para Salvador. Ficara ali 2 dias com uma a putinha tarada, “Zélia”, e foi com  ela que  eu  fui  deitar. Depois do sexo, dormi e às  4  horas  o Zé Antônio me acordou e saímos sem falar com as meninas.  Ficamos  em  Muriaé‚ 2 dias, e resolvi não ir ao Rio.  Peguei  uma carona  para São Paulo, deixando o Zé Antônio  contrariado,  pois ele não gostava muito de viajar sozinho.
Michel  também  não  estava conseguindo  dormir  e   ficamos conversando sobre as ruínas Incas que pretendia visitar.  Falei-lhe sobre Ollantatambo e o caminho dos Incas.
O caminho dos Incas foi umas das grandes aventuras desta viagem.  Eu,  Orlando  e  Abraham, os peruanos de Lima  e  Peter o Inglês nascido em Paris e que morava com os pais em Barcelona.  Os  peruanos eu conheci no trem de Arequipa para Cuzco,  e Peter, conhecemos  na fortaleza de Saqcsuymã em Cuzco.  Peter estava tentando se auto fotografar nas Ruínas e fomos ajuda-lo. Depois  de alguma conversa sobre as ruínas, ele falou-nos de  sua vontade  de  seguir  a  trilha dos Incas.  Marcamos  para  o  dia seguinte  cedo.  À tarde fizemos  compras,  alguns  enlatados, frutas, folhas de coca, açúcar e biscoitos. Na bagagem colocamos agasalhos,  cobertor,  faca, corda e as compras.  À  noite  fomos tomar  uma sopa de papas, muito gostosa. Fazia muito  frio.  Pela manhã encontramos Peter na estação e tomamos o trem.  A  viagem  foi linda, grandes abismos até chegar    no planalto  de  Urubamba com seus Picos nevados com mais de  6  mil metros.  Logo chegamos ao ponto onde deveríamos descer e teríamos que  saltar com  o  trem  andando. O trem reduziu a  marcha  e  saltamos  com algumas  escoriações  sem  importância.  Encontrei  no  trem  2 repórteres da revista “Manchete” que estavam fazendo uma reportagem sobre  o Rio Amazonas, que para quem não sabe, começa com  o  Rio Urubamba, na cordilheira dos Andes. O repórter me deu um vidrinho de Coralmina, para utilizar em caso de falta de ar nas alturas.  A  caminhada deveria ser feita em 4 dias. O primeiro obstáculo  atravessar sobre  o rio Urubamba numa altura de 150 metros, através  de  1 ponte de cordas e algumas tábuas. Após seguimos a trilha de uns 5 quilômetros  até  a passagem sobre a  montanha “El  Paso”  a  5200  metros  de altitude, que  deveríamos atravessar no 1º dia.  Paramos  algumas vezes  para  descansar,  sempre tomando  cuidado  com  as  cobras corais,  famosas pela história do descobridor de  Macchu  Picchu.  Atravessamos  El  Paso com um dia lindo e a vista  do  vale  era incrível.  Descemos  a  montanha e chegamos ao  vale.  Até nesse ponto o caminho  e  as  indicações tinham sido claras.  Mas  no  vale,  a vegetação densa e o mapa impreciso, fizeram com que acompanhássemos um riacho, em meio a bambus e urtigas. Em alguns  pontos  tivemos que entrar na água gelada para continuar descendo. Atravessamos o riacho  num ponto que nos pareceu ser a continuação  do  caminho.  Seguimos  uma  trilha que se dividia em várias. Seguimos  a  mais larga,  mas depois de algum tempo chegamos a uma parede lisa  de pedra  de mais de 100 metros de altura. A trilha era  mais  larga porque  as  pessoas  iam  e voltavam.  Voltamos,  mas  já  estava escurecendo e estávamos no meio da floresta.Começava  também a chover. Conseguimos abrigo em baixo do  tronco de  uma  árvore  centenária,  que mais  parecia  uma  caverna  e tentamos dormir, todos encolhidos, com fome e frio. Choveu a noite toda. Pela manhã, ainda molhados, resolvemos seguir o riacho  acima, pois  sairíamos  da floresta. Para enganar a  fome  e  manter-nos espertos, mascávamos folhas de coca. Andamos o dia todo até  sair da  floresta,  justamente no ponto em que entramos.  Paramos  para descansar.  Logo chegou um grupo de turistas, também  voltando, pois  o  caminho  estava  impedido,  um  dia  acima.  Eles  ainda atravessaram  El Paso com a luz do sol, mas teriam que dormir  no vale, do  outro  lado, onde não haviam  cavernas.  Como  estávamos cansados, resolvemos dormir numa caverna. A roupa tinha  secado, e  conseguimos  fazer uma sopa “Knorr”, que apesar  da  aparência, estava deliciosa.
Separamos  palha e gravetos para uma fogueira à noite.  Chegou  noite  e com ela uma chuva fina. Depois da meia noite começou  a nevar e o frio aumentou. A neve derretida escorria pelas frestas da  caverna  sobre  nossas  cabeças.  Os  gravetos  de  palha  se molharam.  Começamos  a  queimar papel.  Queimei  meu  diário  de viagem. Os cobertores estavam encharcados. O frio aumentava e  eu tremia  muito,  meus dentes batiam como um  telégrafo.  Dormimos muito pouco .  Pela manhã saímos da caverna e a visão era glacial.  Neve  por  toda a montanha, contrastando com o  verde  da  selva.  Preparamos  nosso  retorno, que não parecia fácil.  Teríamos  que escalar  o El Paso com neve. Só Peter tinha alguma  experiência da Europa.  Enrolamos nossos pés com plástico. Joguei  meu  cobertor fora, pois devia pesar uns 20 quilos, molhado como estava e começamos a subida. A neve devia teríamos uns 50 cm de altura,  pois afundamos até os joelhos em alguns pontos. Peter ia à frente com a corda e nós o seguramos de 5 em 5 metros. Passamos toda  manhã tentando chegar ao El Paso, e a neve derretendo dificultava muito. Conseguimos  chegar  no alto depois do meio-dia.  Descansamos  e comemos o ultimo entalado. Eu estava sentindo a boca ressecada.  Tomei um gole de Coralmina e distribui o restante para os  outros.  Agora  só  tínhamos  folha de coca para enganar o  estômago  e  a cabeça.  A  vista de El Paso é maravilhosa de todos os  lados.  A passagem  fica entre um pico com mais de 6 mil metros e  uma  grande pedra. Do lado que subimos, a neve e o vale com uma selva  verde escura,  e por onde iríamos, havia ainda uns 100 metros de  neve.  Depois,  apenas algumas manchas sobre uma relva verde  amarelada.  Depois  do descanso começamos a descer, agora já com um pouco  de sol,  mas  muito frio ainda. Depois de algumas horas  descendo  a montanha,   avistamos  uma  choupana,  fora  da  trilha   uns   2 quilômetros e  fomos para lá. No casebre tinham 2 crianças Índias, um  garoto de uns 12 anos e uma menina de uns 10  anos.  Tentamos falar  com  eles, mas só falavam quíchua, a  língua  nativa.  Com alguma  dificuldade, explicamos a eles que estávamos  cansados  e com fome. A menina saiu e pouco depois voltou com algumas  ervas que colocou em uma vasilha de barro, e depois colocou uma espécie de  rapadura quebrada e água fervendo. O chá ficou excelente principalmente para os  quatro  famintos. As crianças conseguiram-nos um local para dormir num canto do barraco, nos deram algumas peles de lhamas, e a  noite  foi  bem mais quente que a anterior.  Eu  estava  muito cansado e adormeci logo. Acordei pela manhã, já com sol.  Peter já  estava de pé, conversando através de sinais com o  incazinho.  Ele me disse assombrado que se não tivesse visto não acreditaria; as crianças  viviam ali sozinhas, enquanto  seus pais moravam há uns 10 km abaixo pelo vale. Eles ficaram ali para cuidar  de algumas lhamas. Peter e eu tiramos algumas  fotos  das crianças e do local. Peter lhes deu uma correntinha de  presente, e eles ficaram muito agradecidos Meus  lábios  racharam e apareceram minhas  feridas  de  febre abaixo do nariz.Continuamos descendo em direção ao Urubamba. Chegamos á ponte  as duas da  tarde.  Eu já estava me sentindo fraco,  pois  estava  mal alimentado e o ar há 4 mil metros é rarefeito. Orlando e Abraham tinham atravessado a ponte, Peter ia pelo meio quando  comecei a  atravessar.  Tive que pedir ajuda, pois estava  com  uma  forte vertigem.  Peter correu e Abraham também. Levaram-me para a  outra margem e consegui chegar até o ponto de tomar o trem, uma pequena plataforma.  Teríamos que aguardar até as 17 horas pelo  trem,  e rezar  para  que  ele  parasse.  Enquanto  aguardávamos,  Orlando descobriu  uma  casa ali próxima e trouxe um pão e um  pouco  de refresco de maiz. Quando ouvi o apito do trem e fui separar o dinheiro da  passagem, notei que tinha perdido minha carteira de notas com meus últimos  50 dólares.  Falei  com  Peter  e ele me  disse  que pagava  a minha passagem. O trem reduziu a velocidade e conseguimos subir os 4. A viagem  foi  boa e chegamos á noitinha em Cuzco.
Michel achou a aventura fascinante, e pretendia fazer o  percurso a pé,  porém melhor equipado. O dia  estava  amanhecendo. Jozsef veio se  juntar  a  nós,  e convidou-nos  para  um café. Depois do café  fomos  confirmar  as passagens e preparar para o embarque. O avião era um Electra e nos acomodamos em 3 poltronas juntas.  Michel contou-nos que morava em Ottawa,  era estudante, tinha  23 anos, e pretendia ir até o Peru e a Bolívia. A  viagem foi calma e depois de 4 horas estávamos contornando  o vulcão de Medellín. O desembarque  foi  normal, até sermos  separados  do  grupo  de  passageiros  por  4  policiais, que talvez por  nossa  aparência  estivessem fazendo  a  famosa  amostragem  de  alfândega. Fomos revistados, inclusive o cão e o arco e flechas de competição  de Jozsef. Depois  de liberados fomos à rodoviária para conseguir um  ônibus  para Bogotá.
Conseguimos o ônibus e pagamos um lugar para o cão, pois ele  não poderia ir à bagagem. Viajamos a noite toda. Ao meu lado ia  uma garota, baixinha como a maioria das colombianas do planalto, mas era loura o que a distinguia das demais. Começamos a conversar, e ela pensou que eu também era americano. Quando soube que  era brasileiro, se entusiasmou. Disse-me que tivera em São Paulo numas férias  e que achava o Brasil maravilhoso. Seu nome  era  Glória, tinha  18 anos, morava em Medellín e estava indo para a casa  dos avós  em  Bogotá. Entre uma cochilada e outra  ela estava  lá  de papo.  Passei  a  madrugada  namorando a  menina  no  ônibus  até‚ chegarmos  a Bogotá. Lá ela me deu uma lembrancinha,  um  pequeno chinelo  para  pendurar  como  seu  nome.  Nos  despedimos  na rodoviária,  ainda  no ônibus. Eu e Jozsef  saímos  carregando  a caixa  com  o cão e o Michel nos acompanhou, tomamos  um  táxi  e fomos  procurar  um  hotel em que pudéssemos  ficar  com  o  cão.  Encontramos  um em que o gerente nos garantiu que daria um  jeito para  o  cão ficar, embora o regulamento não permitisse.  O  hotel Guacalá era muito confortável. Ficamos os 3 no mesmo quarto.  Era mais barato e como  chegamos pela manhã e estávamos cansados, tomamos  banho  e fomos  dormir.  Acordei às 14 horas e Jozsef e Michel  já  haviam descido  para  o  restaurante. Também desci e  os  acompanhei  no almoço.  Fizemos  a programação da tarde. Trocar dólares,  ir  ao aeroporto para verificar sobre vôos para Letícia e conhecer Bogotá.  Eu  já  havia estado lá um mês antes. Trocamos  os  dólares  numa agencia  de  viagem e tomamos um táxi para o  aeroporto,  pois  a agencia  havia nos informados que, para transportar o cão,  seria necessário ir de avião cargueiro. No aeroporto conseguimos fazer a reserva. Iríamos os três e o  cão todos  como  carga. Mas só dai a 2 dias e o avião  sairia  entre 5:30 e 6:30 da manhã
Voltamos  para  o  hotel  para o  jantar.  Resolvi   visitar  uma correspondente  minha de Bogotá. Aconteceu o seguinte: Quando  eu já estava em Lima, escrevi ao jornal “El Expectador” para que  as pessoas  que  estivessem  interessadas  em  corresponder   comigo escrevessem para Quito, no Equador, para a posta restante, e  que após  o  Equador eu visitaria a Colômbia. Recebi  várias  cartas, inclusive  esta  de  Bogotá. De Quito eu respondi  para  que  ela escrevesse para a posta restante de Bogotá. Só que quando  passei por  Bogotá não havia nada. Agora sim estava a carta dela. E  com telefone. Telefonei e ela me deu as coordenadas.
Tomei  um  táxi e segui as instruções. O bairro  era  próximo  ao aeroporto.  Um bairro chique. No endereço toquei a  campainha  do portão  e  logo  veio uma menina atender, tinha 16  anos  e  se chamava  Beatriz. Estava muito elegante, contrastando  comigo,  que estava  de  Jeans.  Beatriz contou-me  que  estava  ansiosa  para conhecer-me. Depois de uns 15 minutos de papo, chegaram seus  pais que haviam jantado fora. Ele era presidente de uma Cia de  Navios Mercantes  e a mãe professora de piano. Serviram um  vinho  do porto, e fiquei de papo até a meia noite. Prometi escrever  e me despedi de todos. Voltei  ao  hotel,  e encontrei Michel  e  Jozsef  dormindo.  Fui dormir.  Acordamos cedo, porque teríamos um dia de  turista. Fomos ao Museu Del Oro. Maravilhoso! Riquíssimo! Esplendido! Fantástico era  o que se ouvia no museu. Visitamos o prédio dos Correios, e  alguns prédios históricos. Paramos em um bar para lanchar e tomar uma  cerveja.  Encontramos um outro americano também  hospede  do hotel  Guacalá.  Ele contou-nos que já  estava há  uma  semana  em Bogotá e que conhecia uma casa na zona que era excelente.
Fomos lá. Tomamos muito “uísque”, vodca e gim, que deu um  porre danado. Jozsef  resolveu  ir para a cama com uma  colombiana  de  cabelos longos. Meia hora depois ele voltou puto. Disse que a  mulher chegou  no  quarto, tirou a peruca, e tinha  o  cabelo  enrolado, tirou  o  soutien e  seus seios enormes  caíram.    O  Húngaro brochou. Saímos da zona e voltamos para o hotel todos de porre.  Na  manhã seguinte durante o café, conheci uma  garota  americana muito  simpática  e  batemos  um  longo  papo  sobre  a  cultura pré-colombiana.  Á tarde estive numa agencia de  viagens  trocar  mais alguns  dólares. Quando estava dentro da agencia,  percebi um tumulto na rua: estudantes com faixas,  gritando, foram dispersos pelos  policiais,  que  deixaram um rastro de  pancadaria  e  gás  lacrimogêneo.  Tive  que  voltar a pé para o  hotel,  evitando  o centro  que estava tomado pelos militares. Cheguei ao hotel e   o pessoal  já  estava preocupado com a demora, principalmente com  a notícia de presos e feridos na manifestação.
Tínhamos  que estar no aeroporto até as 18 horas para entregar  o cão,  pois era necessário que ele ficasse no depósito, pois  pela manhã  viajaríamos.  Resolvemos  passar  a  noite  no  aeroporto.  Ficamos conversando com  Michel servindo de intérprete entre mim e  Jozsef. Tomamos algumas cervejas e depois nos  acomodamos  em nas  poltronas e dormimos até as 4 horas da manhã.  Tomamos café e nos preparamos para a viagem.
O avião era um velho C-47, um cargueiro da segunda guerra, todo furado,    não tinha bancos e tivemos que sentar no chão e  segurar nas bagagens que estavam bem amarradas. Janelas, só as dos pilotos. Para vermos a decolagem tínhamos  que olhar pelos buracos. Depois de uma hora de  viagem, nos acomodamos atrás dos bancos dos pilotos e assim   foi melhor,  pois  o avião saltava muito, não era  pressurizado  e  a viagem  durou  4 horas. Fizemos uma escala para  descarregar  uma encomenda  e seguimos viagem, agora já sobre a selva  amazônica.  Como o avião voava baixo, a vista era muito boa.
Descemos  na  quente Letícia e fomos para um Hotel,  ou seja um local para estender a rede. O hotel  era  de brasileiros que  nos preveniram  para  usarmos  repelentes  na   pele, pois  a  cidade  estava infestada de pernilongos. Letícia  tem um calor úmido, que incomodava muito, a  gente  fica com o corpo todo melado.  Horrível, e numa cidade sem  saneamento é pior.
Michel  não  desceria  o rio amazonas conosco.  Fomos  comer  uma peixada num bar próximo ao rio Solimões. Rio Solimões é o nome do Rio  Amazonas  no  local. No restaurante  encontramos  um  alemão “Peter Brauer”,  que estivera no Brasil e acabara de subir  o Rio.  Quando  soube  de nossa intenção de descer o  Rio,  ele  se entusiasmou, e disse que gostaria de voltar.
Começamos  os preparativos. O alemão parecia conhecer todo  mundo por ali. Nos apresentou um outro alemão que parecia ser o dono da cidade.  Ele tinha um comércio de madeiras, mercearia, e  tudo  o que  se comercializava na cidade de ilegal precisava do  aval dele. Conseguimos  dele um barco a remo de 7 metros com uma  cabana  no centro  por 100 dólares. O alemão mandou preparar o barco e  nós fomos  ajudar. Poderíamos dormir os 3 dentro do barco. Também seria possível  armazenar  alimentos,  enlatados,  sal,  óleo   e querosene. Resolvemos  sair ao anoitecer para chegarmos a Benjamim  Constant no dia seguinte.
Transportamos  toda  a bagagem para o barco, no  que  Michel  nos ajudou. Fomos a policia para carimbar os passaportes e juntamente com o cão embarcarmos eu, Jozsef e Peter. Estava escurecendo e descíamos  o Rio Maranón remando e remando.  Peter na proa, eu e Jozsef na popa. Combinamos  que  a cada  2 horas revezaríamos o piloto. Jozsef foi o  primeiro,  eu fui  o  segundo  a navegar de 10 a meia-noite.  Peter assumiu  e depois   de  meia  hora  acordou-nos  apavorado,  com  o   barco descontrolado, rodando. Jozsef foi para a popa e eu para a proa; Remamos  para  o centro do Rio tentando fugir  ao  rodamoinho  da água.  Ainda sonolento e assustado com o incidente, não  conseguia raciocinar  muito  bem. Depois de conseguir controlar o  barco  e afasta-lo  da margem, não conseguimos dormir, e  não  tínhamos como  parar  pois  a noite estava muito escura.  Com  a  lanterna levamos  o  barco para a margem e o amarramos a uma  arvore. Assim conseguimos  dormir  um pouco. Pela manhã descemos até  a  cidade, prometendo  não  navegar  mais  à  noite.  Chegamos  a   Benjamim Constant;  levei os passaportes para o visto. Só que era  feriado, 01/03/76, Terça-feira de carnaval e teríamos que esperar até o dia seguinte.
Naquela  noite fomos ver o desfile de um bloco  carnavalesco e aproveitamos o calor para tomar cerveja. Voltamos ao barco para dormir. A alfândega só abriu na  parte da  tarde, pois o policial responsável estava pescando. Depois  do visto  e  algumas compras seguimos  viagem.  Alguns  quilômetros abaixo, nós passamos por um controle militar que revistou o barco  e conferiu a documentação.
Remamos  um  pouco e no final da tarde chegamos a  Esperança,  um vilarejo.  Conseguimos um local no porto para amarrar o  barco  e resolvemos  passar  a  noite ali. Eu e  Peter fomos  conhecer  o vilarejo, enquanto Jozsef preparava alguma comida. Paramos num bar restaurante,  onde  uma garota de vinte e poucos anos  atendia  o balcão.  Pedimos  uma  cerveja e ela veio  toda  sorridente,  nos serviu  e fez as mesmas perguntas, que todos. Vocês são  gringos?  Peter disse que sim. Célia, este era o nome  dela,  convidou-nos para  jantar  no seu restaurante. Recusamos,  mas  dissemos  que voltaríamos  mais tarde para outra cerveja. Jozsef realmente  não era  um cozinheiro, mais preparou ovos com bacon salsicha e  um pouco de macarrão cozido na água e sal à  noitinha Jozsef amarrou o cão no barco e fomos tomar  cerveja.  Célia  estava  toda maquiada e agora havia mais duas  garotas  e alguns  fregueses também. Depois de algumas cervejas, Célia também sentou a nossa mesa com mais 2 garotas mestiças índias.  Célia ficou  comigo,  enquanto  Jozsef e Peter sumiram  no  interior  do restaurante.  Conversamos  um  pouco; ela me  disse  que  era  de Tabatinga  e montara o negócio junto com a mãe, que  naquele  dia estava  para Manaus. Depois saímos da mesa e fomos para o  quarto dela  onde  havia  uma  rede toda rendada  e  lá  fizemos  sexo, transpirando muito, devido ao calor e a cerveja. Voltamos ao  barco prometendo sair com o sol Acordei  cedo, preparei um café solúvel e acordei os  dois  para continuar a viagem.
Havia  um  barco  grande  atracado no  porto.  Peter conhecia  o capitão e foi lá conversar com ele. Depois voltou com um  rifle  de  repetição que o capitão  queria  vender.  Nós  não tínhamos  nenhuma  arma de fogo e as flechas  de  competição  de Jozsef   não  poderiam  ser  atiradas  em  qualquer  alvo,   pois poderíamos perde-las. Mas o capitão queria 200 dólares pela arma e  não  estávamos  dispostos a pagar  tanto.  Peter mostrou  que atirava  muito bem, pois acertou alvos fixos a uns 50  metros  e até  derrubou  um  pássaro no rio. Continuamos  descendo  o  Rio, depois  da  noite festiva. O sol queimava bastante e  íamos  nos banhando  com água do rio. O dia passou  rápido.  Conversávamos sobre  o Catamaran que Peter sonhava  construir. Segundo  ele, um  capitão  de um barco que fazia a  rota  Manaus/Tabatinga,  se dispusera  a  financia-lo.  Esse  capitão  tinha  um  armazém  beira-rio próximo a Tocantins. Jozsef estava interessadíssimo  em construir o Catamaran principalmente depois que Peter mostrou  o projeto  e contou as vantagens do barco que poderia até subir  o rio  à  vela,  e ainda navegar no mar. Ai, a  fantasia  ia  longe.  Jozsef  disse  que seu sonho era viajar pelo mundo  num  barco  vela.  A idéia agora era  construir um Catamaran para o capitão  e com a grana um para nós. Assim o primeiro objetivo de Jozsef que era procurar uma tribo onde  pudesse viver  em  paz, longe das construções, longe do  tumulto  de  uma região  industrial  como  Sommerset em New  Jersey  estava  sendo colocado de lado para o sonho do Catamaran.
Eu  não  tinha entendido bem sua história, de um lado por   não  falar muito  bem  Inglês  e Jozsef parecer não gostar  de  falar  muito sobre  o  assunto; por outro lado eu estava mais  interessado  em voltar ao Brasil do que me meter na vida dele. Se ele tinha algum problema  nos  EUA  não me dissera e como ele  queria  viver  na selva,  selva não lhe faltaria, e não seria eu que  o  impediria.  Peter também era estranho. Encontramo-nos em Letícia e  ele  nos disse  que  passara 3 meses no Brasil, inclusive algum  tempo  no Rio  de  Janeiro. No Rio ele disse que se fizera  amigo  de  Hans Stern o da joalheria, nos mostrou uma roupa que usava quando estava   na  cidade:  sapatos de cromo, calça de  casimira  e  uma camisa  branca trabalhada. Ele também tinha um diário em  alemão, onde anotava algumas coisas. Hoje Peter fez o almoço, macarrão com açúcar e ficou gostoso.  Disse  que  era sua especialidade. Minha  primeira  tentativa  de pescar com anzol, não foi muito feliz. Acontece que pelo rio correm muitos galhos de arvore e eu perdi pelo menos 2 anzóis  pescando os  galhos. Resolvi pescar só quando parássemos para dormir,  uma vez  que  não pretendíamos navegar a noite. Durante  todo  o  dia procuramos  navegar pelo meio do Rio, onde a correnteza era  mais forte  e não precisava ficar remando para fugir  aos  rodamoinhos que se formavam nas margens. Havia, porém, um perigo: alguns troncos andavam  em  velocidade  maior  do  que  nosso  barco  e  poderia atingir-nos, outro inconveniente seria o “banzeiro”, um tipo de ressaca do rio, que acontecia durante as chuvas torrenciais, normalmente ás 2 da  tarde. Nesse dia avistamos somente uma barcaça  carregada  de combustível  subindo  o rio. Dormimos atracados á uma  arvore  no barranco.  Essa noite não foi muito agradável para  dormir,  pois além dos  “borrachudos” pernilongos que não respeitavam  nem  as roupas,  eu  estava com os ombros, ardendo pelas  queimaduras  do sol. O dia amanheceu bonito, com um sol brilhando muito,  resolvi continuar  de  camiseta  sem mangas para  não  queimar  muito  as costas.  Acho  que cometi uma grande besteira; depois  eu  conto.  Seguimos  descendo  o  rio pelo centro,  mas  Peter sugeriu  que mantivéssemos mais à esquerda para passar pelo vilarejo de  Santa Rita  de  Weil, onde ele disse que  encontraria  uns  conhecidos.  Durante  o dia não havia muito  que fazer, além de  conversar  e comer,  uma vez que não precisávamos remar. Apenas nos  revezaríamos na  posição  de piloto na popa. Isto também  até  Peter resolver instalar  um remo na popa para servir de leme. Ai, então dava  até‚ para  dormir.
Planejamos chegar a Tocantins em uma  semana,  onde deveríamos  encontrar  o barqueiro, ou saber  onde  ele  estaria.  Nesse dia também não vimos nenhuma casa nem cruzamos com algum barco.  Onde  estávamos  o rio era bem largo  com  algumas  ilhas compridas,  e  às  vezes poderíamos estar cruzando  com  eles  no momento  que  algum barco cruzasse pelo outro lado.  Consegui  um peixe para o jantar, que devia pesar 1 quilo e era de couro.  Não sei de que tipo era, mas estava gostoso e tinha poucos  espinhos.  Fizemo-lo frito.
Frito,  porém,  estava  eu com minha queimadura. A alça  da  minha camiseta  fizera  uma marca em meus ombros e de ambos  os  lados formaram bolhas das queimaduras. À noite tive febre,  estouraram os lábios também.  O único remédio que tínhamos, além de cápsulas de quinino, eram aspirinas. Tomei 2 para diminuir a febre e a dor e passei a noite me banhando com água para aliviar as  queimaduras.  De  madrugada  eu tremia de frio, em plena selva Amazônica,  e  me enrolei num cobertor.
No  dia seguinte estava melhor e procurei ficar agasalhado o  dia  todo,  e  na hora do sol forte fiquei na cobertura  de  palha  do  barco.  Nesse dia ventou bastante, o que me deu a idéia  de  usar uma  vela  em nosso barco. Paramos numa margem para  procurar  um  mastro.  Peter que  era especialista no assunto, é  que tomou a frente da idéia.  Fomos procurar e não foi preciso andar muito  para  Peter descobrir  uma arvore fina, reta e bastante  resistente.  Levamos  mais  algumas  varas para manter a vela  esticada.  Instalamos  o  mastro e para a vela usamos uma rede de dormir do Peter feita de  tecido  de algodão grosso. Nosso barco ficou parecendo  um  barco  Viking, com uma vela retangular e um cão na proa. Só que  ninguém tinha  experiência em navegação à vela, e, ao invés de andar  mais rápido,  o vento estava segurando nossa descida pelo rio, porque o vento soprava em sentido contrário.
Começamos a navegar em zig zag para aproveitar  a  força do vento e  andar  mais  rápido.  Acho que  deu  certo,  pois  rapidamente  cruzávamos o rio de um lado para o outro. E  assim  o  dia  passou rapidamente.  À  noite  ainda  senti  as queimaduras,  que agora começavam a coçar; depois de  secarem  as bolhas,  começava  a  descascar. Jozsef  me  conseguiu  um  creme americano, que tinha na bagagem, o que ajudou um pouco.
O dia começou chuvoso e demoramos um pouco para sair, pois  não queríamos  correr o risco de um “banzeiro” no meio do rio. Como o tempo   não   se  decidia,  decidimos   seguir. Como   ventava,  aproveitamos  para  usar  o  sistema zig  zag do  dia  anterior.  Esquecemos, no entanto da cidadezinha Santa Rita do Weil e passamos  por  ela  do outro lado do rio. Agora programamos  parar  em São  Paulo  de  Olivença.  A  utilização de  vela  deu  velocidade descida  e a oportunidade de ver as duas margens em alguns  pontos.  Como  o Solimões‚ bastante largo principalmente nessa época  de  cheias, de uma margem às vezes é impossível divisar se  a  outra  margem  é ilha ou terra firme. Foi o que aconteceu em Santa  Rita  do Weil e agora estávamos cuidando para não acontecer o mesmo em  São  Paulo de Olivença.  Nosso mapa não era muito preciso,  e  não tinham  placas  pelo  caminho, muito menos  a  pessoas  a  quem perguntar.
A  viagem  já estava ficando monótona. Já   faltava  assunto  para conversar,  a  comida também já estava enjoando,  macarrão  doce, arroz,  farinha, peixe e salsicha. E só vendo nossas caras. Até o cão  já   estava impaciente. Precisávamos fazer  algo.  Resolvemos parar  numa  ilha e explorá-la. Escolhemos uma pequena  para  não correr riscos. Eu fiquei no barco, enquanto Jozsef e Peter de facão em punho, e o cão  exploravam  a ilha. Devem ter rodado meia hora,  e  voltaram satisfeitos,  com alguns mamões que conseguiram do outro lado  da ilha. Disseram não ter visto nenhum animal, exceto os pássaros. Resolvemos dormir ali e seguir no dia seguinte.
Minhas queimaduras já cicatrizaram, e agora apenas coçam um pouco, mas  não atrapalham o sono. Para evitar os borrachudos, alemão dos repelentes  que acho, são atrativos, pois quando passo, eles vem  em bando,  tenho usado um saco de dormir, chapéu e um véu no  rosto.  dia  prometia ser chuvoso. Pesadas nuvens cobriam o céu  e  um denso  nevoeiro impedia-nos de ver o outro lado do rio. O  ar  estava quente. Como Jozsef e Peter ainda dormiam, resolvi soltar o  barco e descer o rio. Já fazia uma hora que já  estava navegando, quando Jozsef acordou, cheio de disposição e foi fazer a única ginástica  possível no barco, remar. Remamos uns vinte minutos,  até  Peter acordar  e  preparar nosso café com leite. O leite  em  pó  era  holandês, tínhamos comprado em Letícia 2 latas grandes, acho  que eram de 5 quilos. Além disso, tínhamos os mamões do dia anterior.  Estávamos tomando o nosso café calmamente, conversando e o  tempo começou a clarear. Agora já  se podia ver o outro lado do rio, uma vez que estávamos navegando pelo lado direito. Acontece que  pelo nosso  lado direito não era terra firme e sim uma  ilha  bastante comprida,  e só notamos isso quando terminou a ilha, e  do  outro lado  pudemos  ver talvez uns 2 quilômetros acima, São  Paulo  de Olivença.
A  água estava correndo forte e não seria fácil chegar  cidade remando.  Peter hasteou a vela, e nós três pegamos os remos.  Acho que gastamos uma hora fazendo zig zag, mas chegamos ao  vilarejo. Foi  bom ver gente de novo, depois de dias. Fomos tomar  cerveja, comprar  biscoitos, açúcar e ovos. Ficamos até umas 2  da  tarde, quando choveu um pouco e o tempo limpou. Aproveitamos o bom tempo  e seguimos  viagem.  Nossa  intenção  era  chegar  ao  Armazém   do barqueiro,   que  ficava  logo  após  Tocantins  e  se  o   tempo colaborasse,  gastaríamos de 4 a 5 dias. Tínhamos provisões  para tanto, e provavelmente não precisaríamos parar no caminho. Banhos nós tomávamos no barco, sobre a proa que tínhamos forrado.  Necessidades fisiológicas eram também feitas no rio, para  melhor alimentar os peixes. Até o cão estava educado e só fazia as necessidades na proa onde  podíamos lavar. Nesse dia ainda foi possível usar a  vela  no final  da  tarde, quando o vento soprou um  pouco.  Já  estávamos peritos  na  navegação  à vela, dizia Peter  Acampamos  em  terra firme,  num local onde haviam algumas arvores cortadas  e  foi possível  fazer  uma  fogueira  para passar a  noite.  Mas se  os pernilongos  incomodavam  dentro d’água, no barco,  fora  dele,  na barraca era pior. Com a fogueira foi possível assar um corimba no espeto,  que Jozsef pescou. Jozsef estava nos contando um  pouco de  sua  vida,  depois de alguns goles  de  cachaça:  Nascera  em Budapeste,  tinha  35  anos, dois irmãos  mais  velhos,  seu  pai morrera na segunda guerra, lutando contra nazistas. Viveu algum  tempo na  Hungria,  com  a  mãe, depois com a  tia  na  Alemanha,  onde aprendeu  um pouco de alemão. Voltou a Hungria e ficou com a  mãe até completar 21 anos, depois da morte da mãe, fugiu do comunismo húngaro para a Áustria e de lá para os EUA, onde já  estavam  seus irmãos, mas levou 2 anos para chegar lá, trabalhando na  Europa.  Disse  que  trabalhou  sempre em construções.
Na  Áustria  ficou  2 meses com amigos e de lá foi para a Holanda. Depois foi para a Itália  onde  trabalhou  6 meses com uma Cia  Inglesa;  com  isso conseguiu  ir  para a Inglaterra onde ficou um ano, antes  de  ir para os EUA. Nos EUA, apesar dos irmãos já estarem lá há algum  tempo  a vida não foi fácil. Trabalhou numa madeireira  no  Colorado por 3 anos,  e depois foi para New Jersey, onde ficou até  resolver deixar tudo.  Só não nos contou  o porque.
Bom, tínhamos muito tempo para conversar ainda. Jozsef  acordou cedo, e depois me acordou e disse que  estava com  muita dor de cabeça, devia ser ressaca. Preparei um café bem forte  e  depois ovos com bacon.  Peter acordou com o cheiro  da fritura  e  também estava com fome. Depois do lauto break  fast, fomos  exercitar  os  braços  remando. O  dia estava  bonito,  e prometia  ser  quente. Cruzamos com um barco de  passageiros  que subia  o  rio, e apesar de estar a uns 50 metros  nosso  barquinho  chacoalhou  bastante  nas ondas provocadas  por  ele.  Almoçamos macarrão doce, que estava virando nosso prato preferido.  À tardinha encontramos um pescador que estava com seu pequeno bote carregado  de bananas  de fritar. Nós trocamos  uma  garrafa  de cachaça por  um cacho de bananas. O pescador  disse  que  morava próximo  a  Monte Cristo, um vilarejo que ficava logo abaixo,  do lado  esquerdo do rio. Começou a ventar e resolvemos  aproveitar para apressar nossa descida usando a vela. Passamos Monte Cristo, Amataura  e, quando já  estava quase  anoitecendo, paramos  para  dormir. O jantar foi banana frita,  carne  seca  e ovos.  A  noite foi quente e choveu um pouco de  madrugada.  Pela manhã, novamente banana frita com café e leite, e remamos um pouco Até o  meio do rio para aproveitar a correnteza, já  que não tinha vento.  Cruzamos com outro carregamento de óleo em  uma  barcaça subindo o rio e sofremos mais uma vez com as ondas. Fora isso  a viagem continuava monótona. Estávamos naquele barco há 11 dias  em tempo integral, olhando um para a cara do outro ou para o cão.
Mas se tudo desse certo, estaríamos no armazém do Valmir “barqueiro” no dia seguinte. Passamos por Santo Antônio do Iça ao meio  dia, mais não paramos. Aproveitamos o vento e seguimos usando a  vela.  Só paramos ao anoitecer e cansados, pois, o vento contrário  nos obrigou a fazer zig zag e remar um pouco.
Dormimos bastante e só levantamos às 8 horas, pois o dia amanheceu com chuva. Assim  que melhorou o tempo seguimos viagem e só no final da tarde chegamos ao armazém do Valmir. Peter desceu para obter informações do barqueiro e soube que ele devia estar de volta em 2 ou 3 dias. Procuramos  um local para acampar na margem, onde havia um pasto para  gado,  logo  após o ancoradouro, uns 200  metros.
Era  uma pequena  entrada  do  rio no barranco,  fazendo  uma espécie  de enseada.  Amarramos  o barco numa arvore e armamos a  barraca  no gramado do pasto. Quem gostou muito foi o cão que ficou  correndo pelo campo. Dormimos na barraca com uma fogueira do lado de fora e o cão numa pequena armação com paus e capim que Jozsef havia preparado. O dia seguinte foi de reconhecimento na região.
Havia  um  lago  com  patos  selvagens  logo  depois  do   pasto.  Tratava-se  de uma fazenda, com gado que ocupava uma grande   área desmatada. O lago era abastecido por um riacho de  águas  claras.  Fomos  explorar  o  riacho  na  esperança  de  encontrar  pedras preciosas. Peter contava ter ouvido estórias fantásticas sobre ouro e pedras preciosas nos rios da Amazônia, e aquele  também poderia teríamos porque não?
Então  fomos  subindo o riacho pela área desmatada.  Era  gostoso andar descalço pelo riacho e as lembranças da infância em  Jales no  interior  de  São Paulo, ocorriam  em  minha  mente.  Andamos bastante  até‚  entrar  pela  mata ainda  virgem.  Mas  Peter foi chegando  á conclusão que não havia nada ali a aproveitar  a  não ser  alguns  seixos  redondos que  poderiam  ser  guardados  como souvenir.  Peter quis voltar por outro caminho pela  mata,  para chegar mais rápido, pois o riacho era cheio de curvas.  Começamos a andar, subindo e descendo montes.
Engraçado, quando você olha a selva parece tudo plano, mas depois quando você esta lá andando é que você descobre que não tem nada plano.  O terreno é bastante acidentado. Depois de andar mais  de uma hora, achamos que estávamos  andando em círculo e isso me  deu um calafrio de medo, pois me lembrava das selvas do Peru, só  que agora a selva era maior. Como havíamos feito marcas pelo  caminho com  o facão, resolvemos voltar pelo mesmo caminho e  depois  de algum tempo, estávamos no riacho, e aí foi só acompanhar as águas que  saímos  da selva. Jozsef que havia voltado para  preparar  o almoço,  já  estava preocupado  com nossa ausência.  Mas  enquanto tentávamos  sair  da  floresta, Jozsef  havia  comprado  carne  e cerveja  no  armazém. Estava assando a carne no espeto.  Foi  uma excelente idéia do Jozsef, pois já  estava sentindo falta  de carne fresca de boi e de cerveja.
Depois do almoço fomos rever o projeto do Catamaran. Jozsef e Peter foram ao armazém e eu fiquei pescando. Eu  estava ansioso por voltar a civilização, acabar logo  aquela aventura  que  já   durava 4 meses, 3 e meio  dos  quais  fora  do Brasil. Mas ao mesmo tempo a idéia de construir um barco e poder chegar ao Rio de Janeiro de barco era maravilhoso, mesmo que isso levasse  6 meses  ou 1 ano. Apesar de tudo eu sempre fui paciente quando  não era possível apressar as coisas. Minha pescaria se resumiu em  2 peixinhos e um caranguejo que devolvi á água.
Peter conseguiu laranjas para variar nossa alimentação. Nesse dia não  choveu, mas à noite o tempo fechou, choveu e  ventou  muito.  Quase arrancou  nossa barraca e o barco encheu d’água.  dia seguinte foi nublado por toda a manhã. Estávamos tão ansiosos  pela  chegada  do barqueiro, que quando apontou  um  barco  ainda longe descendo o rio, fomos todos para o ancoradouro.
O barco foi chegando e atracou. Não era o Valmir, apenas um outro trazendo mercadorias e passageiros para a fazenda. O capitão  que conhecia  o Valmir disse que ele poderia estar chegando vindo  de Manaus  caso  não tivesse subido o rio Negro, como às  vezes  ele fazia.  Foi  um  dia de expectativa, atento  a  cada  barco  que passava  ou  apontava na curva do rio. O dia se foi e  nós  fomos dormir  frustrados,  apesar de que um dia a mais ou  a  menos  não significasse  nada. Mas a monotonia do local, nossa  inutilidade nos deixavam tensos. Eu já  estava cansado, queria voltar ao Rio de Janeiro e rever os amigos, mas de certa forma estava comprometido com o empreendimento. Esse senso de responsabilidade é que eu não entendia  muito  em  mim,  pois  muitas  vezes,  quando  me   era confortável assumir essa responsabilidade eu não assumia, e agora eu  achava  que  devia ajudar Jozsef, uma vez que  ele  havia  me ajudado a voltar ao Brasil. Com Peter não tinha nenhum acordo,  a não  ser  que havia concordado, caso construíssemos  o  barco,  a irmos para o Rio de Janeiro nele.
Já no décimo quinto dia da viagem e o terceiro aguardando o barqueiro,  começamos a  traçar novos planos, caso o barqueiro não aparecesse,  pois se houvesse ido ao Rio Negro deveria ficar fora um mês, ou  mesmo caso ele não quisesse financiar o projeto.
Em   nossos planos estava a idéia inicial de Jozsef de  procurar uma tribo, e a troco de quinquilharias, conseguir a madeira certa e  a  mão de obra dos índios. Faltava-nos informação  sobre  uma tribo  pacifica.  Eu recordava ao Peter as reportagens  sobre  os cintas largas e de outras tribos que matavam os homens da  FUNAI, e que também não hesitariam em nos liquidar Aproveitamos o dia para desenhar o novo projeto do Catamaran, com local para depósito de alimentos, para dormir, cozinhar, para  o cão, e tipos de vela a usar. Com  o pessoal do armazém não conseguimos grandes informações,  a não  ser  de que as tribos próximas dali  e  conhecidas  estavam sobre controle da igreja, e, portanto dificilmente  conseguiríamos alguma coisa.
Mais um dia e nada do barqueiro chegar. No  outro  dia, mais chuva e mais expectativa. Já  não estávamos  pescando,  nosso  consumo de cerveja estava alto, e,  a  continuar assim,  logo  estaríamos  sem  grana.  Jozsef   estava   bastante preocupado,  pois investira no projeto, e se sua idéia  inicial era  viver  na selva, onde não precisaria depender da  grana,  o projeto  consumiria todo o dinheiro, e ele logo  precisaria  de mais.
Ele falou-me de sua preocupação e teríamos que decidir logo nossas vidas. Peter pediu  que  ele esperasse até o dia  seguinte,  e  caso  o barqueiro não chegasse iríamos embora. Jozsef concordou  e  passamos  os  2  dias  sem  fazer  nada,   só aguardando.  Ninguém  se animava a nada. No final do quinto  dia  de espera, começamos a preparar o barco para continuar a viagem.  Dormimos no barco, ainda ancorado na pequena enseada. Acordamos  com o barulho dos pássaros e macacos na mata  próxima, ainda antes do sol nascer.
Preparei  um  café  com leite e Jozsef fritou   alguns  ovos  com toucinho que havíamos conseguido numa fazenda. Quando o sol nasceu já  estávamos remando. Foi bom depois de 5 dias parados, já estava perdendo  o costume. Houve pouco vento, de forma que não  pudemos usar  a  vela;  mas  andamos bem,  passamos  pelo  vilarejo  de Canavial  e não paramos. No final da tarde  resolvemos  acampar, fomos para a margem e achamos uma enseada onde atracamos.  Eu,  Jozsef e o cão fomos procurar madeira seca para  a  fogueira enquanto Peter fazia o jantar, que deveria ser o famoso  macarrão com  açúcar. A mata não era muito fechada, de forma  que  pudemos andar  bastante  rápido. Logo descobrimos um pequeno  lago,  numa espécie de pântano. Jozsef alertou-me sobre o perigo de  jacaré, mas  não vi nada parecido. Vi sim alguns peixes que deviam  estar desovando,  e como a  água era rasa resolvi pescar os  peixes  com facão, e depois que peguei o primeiro, Jozsef aderiu e também pegou um.  Era  fácil,  pois  bastava cercar o peixe  e  corta-lo  ao  meio.  Pegamos  quatro, o que era suficiente para nós. Assamos os  peixes  na brasa,  e ficaram deliciosos. Dormimos no barco, porque em  terra os pernilongos estavam terríveis. Mais um dia que acordamos cedo e saímos com  sol. Resolvemos subir um afluente do Solimões e poderia ser o próximo que  era  o Rio Jutaí. Pelo mapa poderíamos chegar  á cidade  de Jutaí  subindo o Rio talvez numa semana com bons ventos e  remando bastante.
Fóz do Jutaí
A idéia não me animou muito, mas como o Rio Jutaí nascia próximo do Acre, talvez houvesse um caminho por lá, e ai eu os  deixaria, caso Jozsef resolvesse ficar na selva. Encontramos  um pescador á tarde e ele nos disse que mais umas  6 ou 7 horas chegaríamos a Foz de Jutaí, um vilarejo.  Resolvemos  remar um pouco para apressar a descida, mais  veio  a noite em nem sinal do vilarejo. Resolvi continuar remando a noite enquanto  Jozsef e Peter dormiam. Minha idéia era chegar a  Tefé, pois passando pelo Rio Jutaí à noite, certamente não voltaríamos.  Pela  madrugada Jozsef me substituiu e nada de chegar ao rio.  Eu acreditei  teríamos passado, baseado nas  informações  do  barqueiro.  Jozsef  nos  acordou  quando ainda estava escuro,  porque  o  cão estava  muito nervoso. Peter saiu com uma lanterna e logo  viu  o motivo. Uma cobra grande, talvez sucuri, estava na margem do rio, há  uns  5  metros de nós, entrando na água. Remamos  mais  para  o centro do Rio e não vimos mais a cobra. O dia surgiu com uma forte neblina, mas o rio estava bem  calmo; estávamos  atravessando  por trás de uma ilha comprida  e  estava gostoso remar ali. Logo vimos alguns barracos em terra firme e um pescador numa canoa.
Perguntamos a ele sobre o rio Jutaí, e ele nos disse que era logo após  a  próxima  curva.  Pelas  nossas  contas, e considerando  as informações do dia anterior demoraríamos bastante ainda. Mas  não, lá  estava  o  vilarejo  no alto do  barranco,  e  alguns  barcos atracados  no ancoradouro. Miramos o ancoradouro e  fomos  direto para  lá  remando, só que entramos na correnteza do rio  Jutaí  e nosso  barco  foi  arrastado para o  Solimões,  e  tivemos  muito trabalho para chegar de volta ao ancoradouro. E lá os  marinheiro e pescadores riam da nossa desgraça e inexperiência.  Conseguimos  amarrar o barco e descemos na plataforma de  madeira do ancoradouro. Aí subimos por uma escada escavada no barranco  e calçada com madeira.
A  cidade  chamada  Foz  de  Jutaí  começava  ali,  uma  rua  que acompanhava  o  rio Jutaí pelo barranco, uma casa  em  frente  ao porto,  depois  algumas casas de madeira pelo lado  esquerdo,  do lado  direito  um galpão em construção e mais  algumas  casas  de madeira e alvenaria. A  rua terminava em outra que estava toda enfeitada e que  também era pequena e terminava em frente a igreja.
Fomos  a um bar tomar cerveja e comer uma comida caseira. Lá  nos contaram  sobre a quermesse que haveria á noite e  soubemos  mais sobre  a  cidade.  O galpão que estava em  construção  seria  uma igreja  Batista, de um pastor americano. O padre era holandês,  a cidade  era  Jutaí, pois no mapa apesar dela constar lá  uns  400 quilômetros acima, as inundações constantes forçaram sua transferência para  a  Foz do rio. Soubemos também de uma tribo  de  índios  no rio  Biá. Conseguimos com o prefeito, ocupar a casa em frente  ao porto,  de propriedade da prefeitura, e que servia de  hotel  sem diária para os viajantes. Descarregamos  o barco e armamos as redes. A casa tinha  chuveiro frio e luz elétrica de 6 as 10 da noite. Á  noite nós fomos á quermesse, e aproveitamos para conhecer  toda  a população da cidade.
Peter foi conversar com o padre João em alemão, e este  que  não nos  achava  bem vindos á cidade, disse que  não  falava  alemão; Peter então lhe falou em holandês e ele também‚ recusou,  dizendo que  no Brasil ele só falava português. Então conversei  com  ele, falei-lhe  de  nosso objetivo. Ele mostrou-se  desinteressado,  e disse também desconhecer qualquer tribo no alto de Jutaí.  Estivemos  também com o prefeito que nos apresentou sua esposa  e duas filhas  Rosilene de 17 anos e Jocilene de 13 anos,  duas  garotas muito  bonitas, que estavam bem maquiadas e bem vestidas  para  o padrão local.
No  caminho do nosso “hotel”  passamos pelo Galpão onde  estava  se realizando  uma reunião dos adeptos á religião  Batista.  Paramos para  falar com o pastor John. Muito simpático ele  nos  atendeu, soube  do  nosso objetivo e nos disse que subindo o rio  Jutaí  e entrando no seu segundo afluente, o Rio Biá, poderíamos encontrar os  índios, já  pacificados e até alguns produtores de borracha. Ficamos  de  passar o dia seguinte pela sua casa  para  conversar mais a respeito do assunto. O sono foi mais confortável nessa noite. Acordamos   depois do sol nascer e não  tínhamos  que  remar naquele dia. Tomei  uma ducha, me vesti e fui me reunir com o pessoal  no  bar para o café da manhã.
Fomos visitar o pastor em sua casa. A casa de madeira, muito  bem construída,  toda  cercada de varandas cobertas por uma  tela  de nylon branca para evitar os insetos. Apresentou-nos  sua  esposa, uma americana loura,  muito  bonita, tipo tradicional americano. Ele disse-nos que tinha 3 filhos, mas estavam   na  escola.  Contou-nos  também  que  sua  igreja   era regionalizada e a sede da sua região era em Tabatinga.  Conversávamos  em Inglês, e eventualmente o pastor me traduzia  o que  eu  não estava entendendo. Disse que  necessitávamos  de  um motor,  barco de carga e passageiro para rebocar até o  rio  Biá; pois  o  Jutaí tinha uma correnteza muito forte,  e  mesmo  assim deveríamos  levar 3 dias para chegar lá. Como não havia  comércio rio  acima, era conveniente levar as ferramentas e  provisões  de Jutaí.
Fomos almoçar e fazer nossa relação de compras: 1 serra grande para cortar arvores; martelo,  trado, serrote, pregos, corda,  machado,  espingarda 16 “, munição, lima grossa, arco de pua, formão, etc...  Tecido de algodão para vela. Relacionamos também leite, arroz, macarrão, chá e café, biscoitos para um mês”. Fizemos todas as compras num armazém, era o único na cidade, e Jozsef ainda  pagou em dólares, e para nossa surpresa sobraram apenas  50 dólares.
Jozsef  ficou preocupadíssimo, e resolveu escrever para um  amigo em Summerset NJ nos EUA, pedindo que o amigo recebesse por ele o salário desemprego e depois ele indicaria o local para enviar  o dinheiro. Dei-lhe o endereço do meu amigo no Rio de Janeiro, pois caso o amigo ligasse, poderia falar com alguém em Inglês. Escrevi também  ao Arthur, informando minha posição e situação e caso  o amigo ligasse, ele saberia o que falar. Peter também  escreveu  para a Alemanha, mas  apenas  para  dar noticias. Aproveitamos o barco do correio e enviamos as cartas.
Peter conseguiu que um barco nos rebocasse até o rio Biá por  10 dólares,  e  de lá iríamos remando até a aldeia. Talvez  1  ou  2 dias. O barco partiria no dia seguinte pela manhã. Preparamos  toda  a bagagem e no outro dia  bem  cedo embarcamos tudo. Amarramos nosso barco ao lado do “motor”, e sob chuva iniciamos a subida ao Rio.
A  sensação  de subir o Rio Jutaí era diferente,  mais  tinha  um problema,  o  barulho e o cheiro do óleo  diesel  era  nauseante.  Choveu o dia todo, e no final da tarde paramos numa pequena vila, chamada  Eldorado, onde devia ter umas 10 casas e um  armazém.  O barqueiro  desceu para fazer negócios e disse-nos que passaria  a noite ali. Poderíamos descer e tomar cervejas com as  raparigas.  Descemos, mas não arriscamos a gastar os 40 dólares com  cerveja.
Assim mesmo descemos e fomos namorar as raparigas. O único que se deu bem foi Jozsef que conseguiu ir para cama  com uma garota até bonita, que estava só. Eu e Peter voltamos para  o barco para dormir.
O dia seguinte ainda estava chuvoso, mas a viagem continuou  sem novidades  e a noite chegamos ao rio Riozinho onde  havia  outro armazém,  só  que  esse era uma palafita e  segundo  o  barqueiro atendia  aos lenhadores da região. Realmente á tarde nós encontramos uma barcaça arrastando uma grande quantidade de toras rio abaixo.  Passamos  a noite no barco e antes do sol nascer seguimos para  a próxima parada. Choveu somente a tarde, quando estávamos  chegando a Foz do rio Biá. O armazém também uma palafita, ficava a direita do rio Jutaí, bem a frente do Rio Biá. A região toda fica alagada nessa época. O barqueiro fez os negócios com o dono do armazém  e seguiram viagem. Ficamos ancorados no armazém e resolvemos que só sairíamos  na manhã seguinte. Soubemos pelo pessoal  do  armazém, que alguns quilômetros acima pelo rio Biá, encontraríamos a  casa de  um  seringueiro,  “Pedro”, que  era  Peruano.  Pesquei  alguns peixinhos para o jantar. Durante a noite choveu bastante, mas  o dia amanheceu claro. Saímos logo cedo, e tivemos que remar  forte para chegar a primeira curva do Rio, onde ficou mais fácil remar.  Cada  vez que batíamos os remos na água para puxar, 2 ou 3  botos saltavam  a nossa frente. Alguns até bem grandes. Passamos  muito tempo nessa brincadeira.
Tínhamos  um  mapa do rio, e aquele trecho era cheio  de  curvas.  Resolvemos tomar um atalho, aproveitando que a região estava toda alagada.  Eu ia à proa com facão em punho, limpando  o  caminho.  Jozsef  ia  ao  lado com uma vara se apoiando  no  fundo  ou  nos troncos e Peter no remo atrás. No primeiro atalho acredito que levamos umas 2 horas  para  cruzar  e arriscamos um segundo atalho que levou a tarde toda; Jozsef  perdeu o facão na água, quando me substituiu na proa.
Mas  quando conseguimos sair, avistei no final da curva uma  casa de  palha  no  alto  de  um barranco.  Remamos  para  lá  e  logo apareceram algumas pessoas Acenamos  para elas e elas também acenaram. Ancoramos onde  havia um bote amarrado e um velho desceu para falar conosco. No alto do barranco ficaram 2 rapazes armados de espingarda, mas tinham cara de amigos.
Cumprimentei o Peruano, perguntando se ele era o Senhor Pedro,  e ele respondeu que sim. Convidou-nos para subir e entramos em  sua casa. Uma casa bem grande de madeira bruta construída em  terreno firme na forma de palafita.
Perguntei-lhe  se  era  por  causa das  cheias  a  construção  da Palafita, e ele disse que não. NA construção assim evita o apodrecimento das paredes, entrada  de insetos e roedores ou mesmo de répteis.
Enquanto  tomávamos um café com biscoitos de  polvilho,  comentei rapidamente  o  motivo  da  nossa  estada  ali,  e  perguntei se poderíamos acampar em sua propriedade. O Peruano, muito amistoso, ofereceu-nos um quarto na sua casa.  Sr. Pedro tinha, além da esposa Maria que não falava nunca,  mais quatro  filhos, duas garotas e dois garotos e um enteado  morando na mesma casa. Numa  casa  bem pequena ao lado, tinha uma filha com o  marido  e duas crianças.
Descarregamos  o  barco  e nos acomodamos  em  nossos  aposentos.  Instalamos as redes, e Manoel o enteado do Sr. Pedro  ofereceu-me um pedaço de uma tela de tecido bem fino para usar sobre a  rede, e assim evitar os mosquitos e o calor. Jantamos comida feita pela dona Maria. Feijão, Arroz, farinha grossa e carne de capivara.  Tudo produzido aqui, disse-me o Sr. Pedro.
Aqui  plantamos arroz, mandioca, abacaxi, mamão, banana, limão  e batata doce. Criamos galinhas, porcos, capivaras e patos. Tem também assai, palmito, macaco, peixe, e até onça por aqui, e não dá muito trabalho  caçar ou pescar; continuou Sr. Pedro.Temos alguns problemas, principalmente nessa época das cheias.
O tifo derrubava muita gente, a malária também; a coleta de látex e bastante  dificultada, tendo o seringueiro de andar de bote  pelo meio da floresta.  Seu Pedro continuou: Meu genro Mário estava com tifo e minha filha Antonia, que é casada com  ele,  e  seus dois filhos estavam com  malária,  e deveriam seguir daqui a dois dias para Manaus, finalizou ele.
Depois de toda a conversa fomos dormir.  despertar na selva e muito bonito, com sons que nos  levam  de volta aos filmes de minha infância. Eram os filmes de Tarzan com todos aqueles macacos gritando ou cantando sons primitivos. Um ou outro  urro  de onça, o matraquear dos  periquitos,  maritacas  e araras. Enfim, um festival de sons primitivos.A casa fica numa curva do rio e num ponto estratégico, pois  além da dupla visão do rio pode se ver o sol nascer e o sol poente.  E lindo!!!
Da  sala  da  casa,  através dos seus janelões,  pode-se  ver  as brincadeiras dos botos “peixe-boi” que segundo a lenda local, é o responsável  pelo defloramento das jovens que tomam banho no  rio quando estão menstruadas. O rio  também é cheio de piranhas, que devoram  em  segundos  os restos de caça atirados na água.
Tomei  um  pouco  de  assai com  rapadura  moída,  porque  não  me acostumei  com  ele puro. O pessoal daqui toma o  suco  puro  ou então  com farinha.  muito forte, tem uma cor avermelhada e  se parece muito com o vinho, o que aliás é como é usado aqui.  Seu  Pedro  e João um dos seus filhos saíram para nos  mostrar  a propriedade da qual ele tomou posse há 20 anos.
Em  volta da casa é tudo limpo num raio de uns 50 metros,  depois tem um pouco de floresta a qual atravessamos por uma picada.  Uns 200 metros após tem uma roça de milho e abacaxi, possivelmente  1 hectare,  após uma área que o Sr. Pedro estima em 3  hectares, esta sendo preparada para o cultivo: ainda faltam algumas arvores para  derrubar e depois fazer a destoca. As seringueiras da  área são preservadas, apesar de que nas 2 áreas só tinham umas 10, mas Sr. Pedro explicou que é assim mesmo.
O Sr.  Pedro  também tem uma área de 2 hectares  com  plantação  de mandioca  e banana em frente a casa, mas para chegar lá  tem  que ser  de barco, porque um córrego deságua entre a casa e  a  roça, formando uma enseada. Fomos para lá e encontramos Manoel o enteado, que estava voltando da  distribuição das tigelinhas para coleta do látex.  Sr.  Pedro abraçou o rapaz e disse-nos: O Manoel é o grande responsável pelo sucesso de nossa roça,  pois além  de  coletar o látex, ele é quem mais ajuda  e  nos  encoraja aqui. O mulato,  um tanto tímido, deu apenas um risinho,  mais  quando lhe perguntei  sobre os tipos de banana ele logo se  apressou  em mostrar.
Esta é nanicão, esta é da terra, esta é São Thomé.  Voltamos  para  o almoço que hoje era pato cozido  com  batata doce  e mandioca. Jozsef e Peter começaram a ficar preocupados  com a  alimentação, pois não podiam suportar aquele tipo de alimentação.  Ofereceram  a  dona Maria alguns pacotes de macarrão  e á  tarde foram pescar.
Sr. Pedro disse-nos que a aldeia dos índios ficava a algumas  horas de  barco  rio  acima, mas que quase todo dia  vinha  um  trazer alguma coisa para trocar. Á noite depois do jantar, nós colocamos as redes na sala onde o vento soprava  deliciosamente. Manoel ouvia algumas musicas de  carimbó numa sonatinha.
Perguntei-lhe se ele sabia ler e escrever ao que seu Pedro respondeu: Aqui  não  tem escola não, a mais próxima esta em Jutaí,  e  aqui todo mundo trabalha. Ana, a filha de 13 anos ajuda a mãe na casa e a  fazer farinha. José, de 8 anos, e João de 17 anos me  ajudam  na roça ou a defumar o látex, e Manoel que tem 30 anos, está  comigo desde os 10 anos, e sua vida aqui e só trabalhar.
Ofereci-me  para  ensinar  alguma  coisa  nos  dias  em  que   eu permanecesse lá. Todos ficaram entusiasmados.Jozsef  tinha um caderno e um lápis. Peter conseguiu  uma  caneta esferográfica e seu Pedro arrumou um caderno também.  Eu  nunca  tinha ensinado ninguém, e me imaginava passar 1  ou  2 anos tentando enfiar o be a bá na cabeça de 4 pessoas já  adultas, pois até o garoto de 8 anos já  trabalhava como adulto.  Eu  não  tinha  metodologia  nenhuma e  resolvi  lembrar  do  meu primário  feito  num grupo escolar de Jales, no interior  de  São Paulo.
Eu precisava de uma cartilha e não tinha. Seu Pedro me  conseguiu  uma folha grande de papel amarelo, desses para embrulho, e usei-o para o quadro negro. Primeiro eu coloquei  o  abecedário em letra de forma,  e  mais  os números  de um a vinte diretos e os 2 primeiros por dezena até  o número  100. Meus alunos eram atenciosos e eu ambicioso, pois pretendia  que eles aprendessem a ler rapidamente. No primeiro dia os fiz repetir o abc todo várias vezes, inclusive os números para que eles decorassem. Mas  esbarrei num problema, eles não raciocinavam e muitas  vezes eu falava: A, B, C, D, E.... e pedia que eles repetissem, ai era um dizendo A, B, D, F, C etc. e outro repetindo as ultimas letras. Uma coisa eles aprendiam rapidamente: ler de 1 a 10. Senti-me mais útil ensinando o abc em plena selva amazônica. Mais um dia amanheceu lindíssimo na floresta e prometia  um forte  calor. Logo cedo apareceu o barco para levar a família da Antonia  para Manaus. Era o mesmo barco que havia  nos rebocado para o rio Jutaí.
O barco demorou pouco, apenas o tempo do pessoal embarcar, e o Sr.  Pedro  trocar algumas bolas de látex por querosene, óleo  e farinha de trigo e algumas peles por cartuchos para a espingarda. Seu Pedro me disse: - Aqui pouco se usa o dinheiro. A maior parte das  compras  e feita na base da troca. Só se vende  a  dinheiro quando  precisa ir a Jutaí ou Manaus. Mas isso a gente  faz  uma vez por ano.
Depois  do  almoço  apareceu um índio da tribo  que  fica alguns quilômetros  rio  acima.  O índio ficou  meio  arredio em  falar conosco  e seu Pedro teve que intervir. Explicou ele num  dialeto de   português espanhol  e  que  pouco  entendi, sobre   nossas pretensões na região. Mesmo assim o índio não ficou satisfeito.
Peter presenteou-o com uma camiseta e uma garrafa de pinga, ai o índio pulou de alegria. Ofereceu a um de nós carona para visitar a aldeia. Peter aceitou  logo. Equipou-se com facão e entrou  no  bote do índio feito com  casca  de  arvore, e lá  se  foram.
Jozsef  ficou treinando  com  o arco e flecha e eu fui pescar para  o  jantar. Peguei  2 piranhas grandes e tive que usar a faca para não levar uma  mordida. Peguei nosso barco e fui um pedaço do rio acima  e fiquei  pescando até o sol se pôr e ai voltei com meia  dúzia  de bons peixes. Além das piranhas, um Tambaqui que pesava  uns 2 quilos.
Dona Maria preparou-os fritos e ficaram muito gostosos. Peter voltou  quando  já   estava escuro,  trouxe  um  pedaço de madeira,  que  o  índio encontrou na mata.  Era  pau d’arco,  uma madeira  resistente,  porém flexível e que os índios  usam  para fazer seus arcos. Peter pretendia fazer um arco especial como  os da  idade média para atirar pequenas setas, uma besta. Disse-nos também  que havia  prometido  um presente ao índio pelo passeio  e  pelo  pau d’arco. O índio estava lá fora esperando e Peter não sabia o  que dar. Seu Pedro foi conversar com ele e voltou para Peter dizendo:
Ele disse que você prometeu-lhe a espingarda, e Peter respondeu: eu não. Jozsef  olhou  bravo para Peter e este se  defendeu  dizendo  que apenas  havia dito ao índio que tinha uma, mas não que daria.  O índio já  tinha consumido toda a garrafa e a solução foi dar outra garrafa e alguns cartuchos de munição.
No meu segundo dia de professor, repeti a mesma aula do primeiro dia, só que os fazendo escrever as letras e números. Ainda não tinha  certeza se  funcionava ou não. Com muita dificuldade eles iam  desenhando as  letras,  mas  já  tinham esquecido a maioria.  Apelei  para  o ditado  e  ditava letra A, e todos acertaram; letra  B,  e  todos acertaram; letra C, e só 2 acertaram; letra D e ninguém acertou. Tentei vencer os bloqueios pelo cansaço, repetindo as letras  que eles não sabiam 10 vezes. Não deu para terminar o alfabeto, pois o José adormeceu. Já era tarde.
Em  dia  de chuva não se trabalha na selva, e aproveitei aquela manhã  para  continuar as aulas. Na hora do almoço, até o  José conseguia repetir sozinho o alfabeto na ordem correta. Vacilavam quando  se  perguntava  alguma  letra sozinha, ai tinham   que consultar o alfabeto.
Depois  do almoço como o tempo melhorou fomos dar uma volta  pela roça.  Na volta encontramos Manoel correndo com a espingarda  na mão.  Gritou ao Sr. Pedro que tinha visto um bando de  capivaras.  Jozsef correu e trouxe a nossa arma. Sr. Pedro pegou os cães, e o Dingo veio também, segundo Jozsef era sua primeira caçada.  Fomos na direção indicada pelo Manoel. Os cães conseguiram  fazer uma  correr  pelo terreno que estava sendo limpo e lá  a  capivara entrou  num tronco de árvore. Fechamos a entrada com paus e  como não havia saída Jozsef trouxe um machado e abriu uma fresta de um lado e uma outra na ponta oposta.
O bicho urrava dentro do tronco. Jozsef me deu a arma que apontei dentro do tronco pela fresta e seu Pedro foi pelo outro lado e me avisou:  Vou  dar  um tiro aqui e como não  estou  vendo  nada  e provável que ele corra deste lado, e quando aparecer você  aperta o gatilho; e eu lhe respondi que entendera.
Ele  atirou e em vulto apareceu na fresta onde estava o  cano  da minha espingarda, e eu atirei na cabeça do bicho, que latiu;  não era  a capivara e sim um dos melhores vira latas do seu Pedro.  A capivara  não apareceu. Jozsef foi abrir o tronco com  o  machado para  retirar o cão, quando a capivara apareceu por trás do  cão.  Jozsef  num  lance rápido acertou-a na cabeça com o  machado.  Só percebemos  após o golpe, quando o bicho ainda tentou levantar  e Jozsef abateu com outro golpe. Tiramos  também  o cão que o Sr. Pedro tristemente  enterrou  ali mesmo.
Levamos  a  capivara  para a casa e pelo caminho  eu  ia  pedindo desculpas  ao  Sr.  Pedro e ele apesar de desculpar  disse-me:  -  inconcebível enganar-se trocando uma capivara grande quase  preta por um pequeno cão amarelo.
Ajudei  João  e Manoel a limpar a capivara e depois a  esticar  o couro.  O jantar estava delicioso, pois dona Maria fritou  alguns pedaços de carne da capivara e serviu com um ensopado de mandioca e pedaços de costela do animal.
Mais um pouco de alfabetização e fomos dormir. No  outro dia Peter acordou cedo foi preparar seu arco, porém  a madeira  dura  fez com que desistisse logo. Fui ajuda-lo  com  um anchó  e assim mesmo o trabalho não rendeu. O índio voltou  agora com  mais dois índios, e ficaram admirados com o  equipamento  de arco e flecha de  Jozsef.  Porém ele não queria se desfazer  do  seu  material.
Conversamos  sobre o Catamaran, mas os índios não se  mostraram dispostos a colaborar. Queria saber quanto pagaríamos, se o  arco e  flecha do Jozsef entrariam no negócio, se tínhamos  mais  pinga, cartuchos, etc.
Enfim  fomos  enrolados pelos índios, pois se  eles  não  levaram nada, nós também não conseguimos nada com eles. Como  não  fizemos  nada  á tarde, ficamos  conversando  e  Jozsef contou-nos sobre suas lutas de caratê em New Jersey. Peter também falou de suas brigas de rua em Stuttgart, Berlim e Bonn onde ele e  um  grupo de motociclistas entraram em guerra  contra  com  os motoqueiros  locais.  Jozsef treinou um pouco  de  lançamento  da “estrela”  contra uma árvore e ele não perdia uma,  Peter também acertou  mais do que errou e eu consegui acertar 2 em  10  vezes.  Peter também falou do seu envolvimento com terroristas do  grupo Baader-Meinhof, e que teria sido aliciado e  participado de  algumas operações. Jozsef não acreditou muito e tínhamos  que selecionar  o  que acreditar. No jantar ainda  comemos  capivara, apesar  de  dona Maria ter colocado um bom pedaço  para  secar  e depois defumar.
Dormimos bem, e eu só levantei quando o sol já  ia alto; tomei meu açaí e fui dar uma volta pelo quintal. Peter e Jozsef foram caçar aves que eles estavam com vontade de comer. Em  casa eu não tinha muito  que fazer e aproveitei  para  tomar banho  no  rio, pois o calor estava insuportável.  Seu  Pedro  me dissera que não havia risco de ataque de piranhas.
A tarde depois da fracassada caçada de Peter e Jozsef, dona  Maria pediu  que matássemos um frango. Jozsef quis mata-lo com flecha  e depois  de  duas  tentativas, o bicho foi  traspassado,  mas  ainda continuou pulando. Nosso jantar foi frango com macarrão para variar o menu local.  Meus  alunos  fizeram  poucos progressos. Manoel já   sabe  ler  e escrever de 1 a 10 e soletrar algumas letras. Ana também já   sabe escrever o alfabeto. Acho que já posso passar as combinações  das letras. Choveu a noite toda, mas o dia amanheceu quente e limpo.
João me chamou para caçar macacos e pescar. Peguei a espingarda e o material de pesca e fomos. Usamos o barco dele, feito de  casca de arvore. Acho que ficava com apenas 5 cm fora d’água e qualquer movimento em falso ele enchia d’água. Eu fui o tempo todo com uma latinha botando a água de volta ao rio. Descemos o rio até chegar  a  uma  ilha onde a zoeira dos macacos era maior. Eles  andam  em bandos,  pelas copas das arvores e é difícil atingi-los, pois  os galhos  atrapalham, e eles fogem a nossa aproximação. Deixamos  o barco   correr  a  deriva,  sem  fazer    barulho,  com  a   arma engatilhada.  Ficamos bem de baixo de um bando de macacos.  Mirei   e atirei. Um macacão avermelhado veio caindo, batendo nos  galhos até  cair  bem  próximo.  João puxou rapidamente  para  o  barco  e enfiou-lhe  uma faca na altura do coração. Resolveu  abri-lo  ali mesmo,  jogando a “barrigada” na água. Em segundos  as  piranhas atacaram. João me ensinou a retirar a pele do bicho. O  resultado é chocante.  Os  músculos das costas são iguais aos dos  humanos.  Faz lembrar  as aulas de ciência. Por instantes você tem  nojo,  acha que jamais comer aquilo. Deixamos o barco descer mais um pouco e João  derrubou  outro macaco e fizemos o mesmo  serviço.  Só  que agora fui jogando aos poucos e no anzol. Logo pegamos meia  dúzia de  tucunaré, o nome de uma piranha do amazonas. Voltamos para  casa remando.  O  pequeno  bote quase transbordava de carga  e  eu  ia tirando  a  água que entrava por cima. Eu não sei nadar e  se  eu caísse  na  água era morte certa. Apesar de que com  todo  aquele sangue  na  água,  eu não escaparia das piranhas  nem  que  fosse campeão olímpico. Voltamos  são e salvos e com bastante comida. A carne  de  macaco deve  ser  cozida  durante várias horas para  amaciar.  Só pudemos come-la no jantar.
Novamente  choveu  a noite toda e um pouco pela manhã.  Como  não tínhamos que nos preocupar em comida por alguns dias, aproveitei  para ensinar um pouco aos meus alunos. Á tarde nós fomos visitar  o estaleiro do Manoel, onde ele estava  construindo  um bote  de  5 metros, com um único tronco, escavando  a  madeira  a fogo. Bem primitivo, mas estava ficando muito bom. Imagine esculpir um barco a facão e machado. Novamente voltou a chover e fomos para casa.
Parou a chuva durante a noite e com João fomos visitar os índios.  João  nos  avisou que só daria para visitar  alguns índios que  moravam próximos a margem, pois os demais moravam uns 10 km rio acima,  e teríamos  que  entrar por um afluente e poderíamos  não  ser  bem      vindos.  Conversamos com eles sobre as madeiras que poderiam  ser utilizadas e sobre a possibilidade deles construírem.  Novamente  não se mostraram acessíveis e tivemos que desistir. Peter disse  que já  não é possível explorar os nativos como antigamente. Voltamos  para  casa  para  mudança  de  planos.  Aproveitamos  o restante  do dia e imaginamos construir nós mesmos  o  Catamaran. Afinal  tínhamos  ferramentas, só precisávamos de disposição,  e muita  disposição  acrescentou Manoel.
Ele nos  disse  que  estava construindo  o seu há 6 meses trabalhando o dia todo e levaria  o mesmo  tempo  para terminar. Ele imaginou que  como queríamos  2 barcos de 10 metros, levaríamos pelo menos 6 meses trabalhando  o dia todo. Era muito tempo para as pretensões de Peter. Ele também  não  parecia  muito disposto a trabalhar duro.  Até  sugeriu  que desistíssemos  da  idéia. Jozsef não parecia muito feliz  com  a idéia  pois,  estávamos   sem  dinheiro  e  sem grandes   opções.
Poderíamos   viver   ali  na  floresta  e  nos   transformar   em seringueiros  ou  madeireiros, ou construir um  barco  para  sair dali.  Nosso  barco  precisava  também  de  reparos  para ser utilizado. Para completar o círculo negativo, a chuva insistente, deixava um mormaço horrível, cheio de moscas.
O canto dos pássaros e a algazarra dos macacos indicariam um  bom  dia, dizia Sr. Pedro. Manoel saiu cedo para a coleta do látex, João foi colher  abacaxi e  Sr.  Pedro  com  José  foram  buscar  mandioca.  Peter ficou escrevendo seu diário e Jozsef foi pescar. Eu saí para um passeio na mata.
Atravessei  a roça de abacaxi onde João trabalhava e através  do riacho  fui caminhando, vendo um ou outro pássaro  estranho.  No mais  a  selva é silenciosa; os sons do riacho,  do  vento,  das folhas são distintos. Qualquer ruído diferente é percebido.  Como o da cotia chegando ao riacho para beber água. Ao perceber  minha presença  ela  desapareceu. Retornei para casa para almoçar  e  a tarde saímos para escolher umas arvores com Manoel para construir os barcos.
Tínhamos que achar uma próximo á água, pois teríamos que  colocar o barco não água depois de pronto. Procuramos  bastante,  e as únicas  árvores  que  achamos  estavam longe d’água. Teríamos que derruba-las e depois arrasta-las  para próximo  do  rio. Já estava ficando tarde quando  voltamos  para casa.
Fui  tomar banho no rio e estava voltando para casa quando  senti uma picada no tornozelo esquerdo. Gritei  e  tudo escureceu.  Acho que cai, pois quando acordei Jozsef estava  me  amparando, enquanto  João fazia um torniquete abaixo do  joelho,  massageando para baixo. Manoel sugou o sangue do ferimento e me transportaram para  casa. A dor diminuiu  com umas compressas feitas  por  dona Maria.  Manoel, disse que matou a cobra que havia me  picado,  trouxe-a para eu ver.
Ela  tinha mais de 1 metro de comprimento,  era  preta  com algumas manchas; rabo curto e cabeça triangular mostrava que  ela era  venenosa. Disse que era uma Surucucu, muito  traiçoeira.  João foi  até os índios conseguir um remédio que  diziam que  curava qualquer mordida de cobra. Chegou já  tarde da noite. Com ele  veio o  índio  que  aplicou  o liquido amarelo  sobre  o  ferimento  e cobriu-o com algumas ervas que segundo ele fariam purgar o veneno todo.  A  noite  delirei  de febre, e  tomei  2  antitérmicos  da farmácia do Jozsef.
Pela  manhã  meu pé e minha perna estavam muito inchados.  O  índio estava lá fazendo as compressas. A dor tinha diminuído e apenas a boca  estava seca. A febre tinha sido muito alta. O dia todo  foi de atenção a mim, ninguém foi trabalhar. Só dona Maria preparando comida e minhas compressas. Ela me preparou um caldo de  galinha, mas eu não estava com apetite nenhum. Queria apenas beber   água.  O  índio forçou-me a tomar o caldo. A noitinha o  índio  falou-me que  eu  estava fora de perigo, e  foi  embora.  Jozsef  estava preocupado  com  meu  estado e  principalmente  porque  em  nossa bagagem  não  havia  soro  antiofídico.  Aos  poucos  íamos  nos conscientizando dos perigos da selva.
Acordei  um  pouco melhor, apesar do pé e  da  perna  continuarem inchados. O pessoal foi trabalhar e Peter e Jozsef foram  pescar.  Estavam esperando eu melhorar, para poder começar o corte de arvores.  Á noite apesar de eu ainda estar deitado eu pude recomeçar as lições do ABC.  Consegui  andar um pouco pela sala, me apoiando, apesar do pé  e da  perna continuarem inchados. Dona Maria dissera que era  assim mesmo, demora alguns dias mais depois desincha.
Eventualmente  sentia algumas fisgadas no tornozelo, mas a dor  já  não  era  tão  forte.  A febre também  tinha  cedido.  Agora  era me alimentar bem e esperar que não infeccionasse.
Deitado o dia todo na rede eu relembrava toda aquela aventura,  a viagem para fora do Brasil e a volta, que eu esperava fosse  mais tranqüila.  Nem  quando  me perdi nos Andes, procurando o  caminho  de  Macchu Picchu, eu me  senti tão longe da civilização, pois agora  apesar  de saber  o  caminho de volta, não tinha como ir  e  estava  ferido, ainda que por  muita  sorte, vivo. O projeto Catamaran agora  já   não interessava,  e  mais  do que  nunca  eu  queria  voltar  a civilização. Já que não era possível continuar aquela aventura.  Bem,  não adiantava muito querer acabar com a aventura.  Primeiro tinha que ficar bom e depois decidir o que fazer.
Durante a aula noturna eu sentia vontade de ficar ali, construir uma escola e ensinar não só aos da casa, como também aos índios.  Manoel  saiu logo cedo de casa para sua coleta de  látex,  armado como sempre, mas não eram 10 horas e ele estava de volta com  sua caça  de  defesa, uma onça pintada grande que segundo  ele  vivia espreitando sua trilha.
Na casa do Sr. Pedro toda caça é aproveitada e a onça foi  limpa, o couro retirado e esticado para secar. Os barqueiros  pagam  um bom  preço por essas peles. A carne, também musculosa foi  cortada para secar. Dona Maria salgava a carne que e depois de seca era guardado num armário com tela de nylon para evitar as moscas.  Peter ficou tão entusiasmado pela caça de Manoel no dia anterior, que já  estava fazendo planos de sair para caçar algumas e  depois  levar as peles para Letícia e vende-las lá.
O que eu até incentivei, pois já  não pretendia construir o barco.  Jozsef  estava  meio  confuso  com  tudo,  pois  onde  ele  havia investido  todo  o dinheiro, o projeto  do  Catamaran,  estávamos  perdendo o interesse. Viver na selva não era tão simples como ele sonhara.  Pode  ser que caçando animais e vendendo  peles  desse algum  dinheiro,  mas  também não era isso que  ele  queria.  Ele queria ficar tranqüilo, num lugar onde pudesse viver,  trabalhar, sem depender de horários, de condução, de patrão, de  legislação, enfim um Paraíso, um Shangri-lá como ele dizia.
Novamente choveu a noite toda e o dia todo. O pessoal ficou  todo em casa. Pela manhã continuei minhas aulas. Já estou ensinando  a escrever seus nomes e ligar as letras. Manoel também me pediu  que o ensinasse a somar. Depois do almoço a sonatinha do Manoel  teve um  probleminha  e parou. Peter dizendo ser  um  especialista  no assunto, ele desmontou o aparelho sem ferramentas, usando apenas  uma faca  e  um  alicate.  Até ai tudo bem, só  que  ele  não  soube monta-la e isso deixou Manoel irritado, pois ele não queria  que Peter abrisse  a  sonata.  A  única  distração  da  casa  estava destruída.  Agora  talvez  nem um  técnico  conseguisse  monta-la novamente.
Jozsef  também  ficou  irritado com Peter  Chamou-o  lá fora  e discutiram um bom tempo. Depois os ânimos se acalmaram e voltaram para dentro. Eu continuava lá na rede, com a perna ainda inchada, se bem que a inchaço diminuía devagar.
Ainda  choveu á noite, mas a manhã estava com sinais de  dia  sem chuva.  O pessoal saiu cedo para a roça e coleta do látex.  Peter chamou Jozsef para caçar. Ele levou a arma do Sr. Pedro e  Jozsef a nossa. Eu fiquei na minha rede tomando um chá de ervas que dona Maria  me  preparara, depois de umas voltas pela  sala  para  não esquecer  como  andar, e para exercitar-me um  pouco.  O  pessoal chegou  para  o almoço, e eu fui até a  cozinha  almoçar  juntos, mostrando   minha  melhora.  Jozsef  chegou  sozinho,  e   quando perguntamos  por Peter ele estranhou, pois nos disse: -  Ele  não chegou?  Como,  se eu o deixei logo após o segundo  riacho,  pois  ele disse  que estava cansado, e queria voltar, eu continuei mais  um pouco, e na volta parei para descansar no riacho da roça. Só  dei um  tiro num mutum, e não acertei. Pode ser que Peter tinha  ido para o outro lado e resolvido caçar. Vamos aguardar um pouco,  e caso  ele demore vou procura-lo. Dito isso, Jozsef  foi  almoçar.  Depois do almoço Jozsef e Dingo saíram a procura de Peter. Jozsef voltou quando já  eram umas 4 horas e sem Peter. Disse que dera  2  tiros  e ainda gritara varias vezes e nada de Peter  nem  sinal.  Manoel e João também saíram a procura, seguindo as instruções  de Jozsef.  Na floresta   difícil seguir pistas, principalmente  as nossas, pois andamos muito dentro d’água ou seguindo os riachos.  Embaixo  das arvores a quantidade de folhas não deixa  as  marcas dos pés no chão.
Os  2  voltaram  já  a noite e sem Peter. Passamos  a  noite  toda despertos,  imaginando Peter chegando em casa. No  dia  seguinte  saímos todos, inclusive eu com o pé enfaixado e dentro de uma bota. Pedi a Jozsef que me levasse ao local onde eles haviam se separado. Ele mostrou-me e comecei a seguir as marcas que ainda Conservaram no  chão, e elas terminavam no riacho, voltando.
Porem ele  tanto poderia  teríamos descido  o riacho como subido,  aliás, ele  sempre me disse  para procurar a nascente de um riacho, era  uma  grande possibilidade de encontrar ouro e pedras preciosas. Dividimos  em 3 grupos.  Eu, Jozsef e Dingo subimos o riacho, e  João  e  José foram  rio  abaixo. Sr. Pedro e Manoel seguiram em  frente,  onde Jozsef disse teria continuado. Marcamos encontrar-nos ali em 3 horas com ou sem sinal de Peter.  Caso  alguém achasse deveria dar 2 tiros seguidos. Jozsef  seguiu por  dentro  d’água e eu e Dingo por fora. Andamos e  andamos  e nada.  Nenhum  sinal,  galho quebrado, roupa  rasgada,  e  nada.  Gritamos  por  Peter e não houve resposta. Voltamos no ponto de partida e nos encontramos com os outros. Nenhum sinal de Peter.  Meu  pé  doía  muito e latejava.  Estava  com  dificuldades  para continuar.  Jozsef  e Manoel me apoiaram e  carregado  cheguei  a casa.  Dona  Maria fez as compressas e logo melhorou,  porém  não poderia voltar as buscas de Peter.
João foi buscar ajuda com os índios e eles prometeram que no dia seguinte cedo estariam lá, pois já  era noite. Antes do raiar do sol os índios chegaram. Facão na mão eles foram com Jozsef e João até o local onde Peter tinha sido visto por Jozsef pela ultima vez. De lá saíram em busca e Jozsef voltou para casa, dizendo que  estava exausto. A tensão pela expectativa da volta de Peter aumentava.  Só  a noite os índios voltaram e sem novidades. Dormiriam  ali  e continuariam no dia seguinte.
Bem  cedo  os índios saíram e logo após Manoel e  Jozsef,  foram para  outro  lado, pela trilha do seringueiro que  tinha  10  km.  Os índios levaram a comida, pois só voltariam a tarde. Á tarde choveu um pouco antes  deles voltarem. Chegaram quando já  anoitecia, e  novamente cansados  e sem noticias de Peter. Hipóteses passavam por  nossas cabeças:  teria sido devorado por um animal, depois de  arrastado para a toca; poderia ter sido engolido por uma cobra grande  como sucuri  ou  jibóia,  comuns na região; teria  entrado  num  local alagado  e se afogado por lá; poderia ter se aventurado a  entrar pela  selva  sem destino. Todas as hipóteses foram  discutidas  e chegamos a conclusão nenhuma.
Os índios disseram que dificilmente Peter sobreviveria uma semana na  selva sem comida. Ele só tinha 5 cartuchos e o facão. As frutas nessa época só tinham assai, e ele não gostava muito. Poderia caçar,  mas ele não tinha como cozinhar. Caso ele resolvesse seguir uma direção, jamais o acharíamos. Seria necessário um helicóptero para sobrevoar a região. Poderíamos  pedir ajuda a Jutaí. Conversei com Jozsef e ele concordou.
Logo  cedo fomos examinar nosso barco e ele precisava urgente  de reparos. Pedimos ajuda a seu Pedro e levamos o barco para a praia do outro lado. Retiramos o barco d’água e o emborcamos.  Tínhamos que  deixar secar no sol e depois tapar os buracos do casco  com trapos  e  piche.  Se  fizesse bom tempo  faríamos  isso  no  dia seguinte. A noite ainda ensinei mais um pouco aos meus alunos.  A cada  dia que passava, meu pé melhorava, e eu já  conseguia  andar bem.  Como  o sol estava quente, fomos para a praia  consertar  o barco.  Passamos horas enchendo os buracos de trapos, piche e  em alguns  Até madeira.  Agora deixaríamos o piche secar  e  no  dia seguinte ele estaria pronto para navegar. Até agora nenhum sinal de Peter. Mais 2 índios vieram ajudar nas buscas e nada. Eles só procuraram mais um dia, passando novamente por toda área num raio de 10 km.
Os  índios  saíram bem cedo para as buscas e foram  para  lados diferentes.  Nós  fomos  com João buscar o barco e   preparar  para a viagem.  Desviramos  o  barco  e usamos  a  força  de  todos  para coloca-lo de volta na água. Na curva do rio logo abaixo, os  botos saltavam  muito carregando alguma coisa. João disse  que  poderia ser  um peixe grande que poderia ter sido capturado pelos  botos.  Imaginei  ser Peter, pois qualquer corpo estranho, a tendência  e ser  levado  para a tona pelos botos. Comentei com Jozsef  e  ele também achou que sim, mas como ainda tínhamos que colocar o barco na água, e continuamos trabalhando. Logo após falei com João, e  ele e José pegaram um pequeno bote e foram para a curva do rio. Voltamos  para casa para preparar o barco para viagem. No  lugar da  coluna  de palha, usamos um plástico grosso  e  começamos  a carregar  o barco para a viagem. João e José voltaram e  disseram não  teríamos encontrado nada. Demos nossa espingarda ao  Sr.  Pedro, pois  Peter havia  desaparecido com a  dele.  Levamos  também  a bagagem de Peter. Nos despedimos de todos, prometendo voltar  com ajuda. Meus alunos sentiram muito minha partida, pois já   estavam aprendendo bem. Saímos mais ou menos as 4 horas da tarde e  como a  semana era de lua cheia, viajamos dia e noite.  Fomos  remando Até  o meio do rio e a partir dai a correnteza se encarregou  de levar o barco.  Jozsef  estava  meio estranho, até arredio.  Passou-me  um pressentimento  terrível.  Se Jozsef houvesse matado  Peter,  ele poderia  facilmente me liquidar no barco. Bastava que me  jogasse na água  e  tudo  estaria terminado para mim.  Jurei  que  se  ele tentasse  não seria muito fácil, pois eu estaria  alerta.  Jozsef disse-me  que  dormiria  um  pouco  para  me  revezar  á   noite.  Aproveitei  para  remar  um pouco e acelerar  nossa  descida.  Já deviam ser umas 9 da noite e eu ainda estava como piloto.  Jozsef ainda  não  acordara. Resolvi deixa-lo dormir mais  um  pouco,  e continuei remando. Cheguei ao rio Jutaí logo após a meia-noite, e ai  passei apenas a controlar o barco, pois a correnteza era  mais forte.  Preparei  um chá, já  que café nós não tínhamos  mais.  Jozsef dormia inquieto e tremia muito.
Acordei-o  e  ele me disse estar com uma dor de  estômago  muito forte.  Dei-lhe  um pouco de chá e  ele voltou  a  dormir.  Continuei  até  o dia amanhecer. Preparei café da manhã  de  chá, ovos cozidos e um pouco de com farinha. Ofereci  a Jozsef, e ele tomou apenas o chá. Continuava febril  e reclamando da dor de estômago.
Ele  não  comeu  nada o dia todo, e estava  bastante  pálido.  Eu estava  cansado, mas  não queria parar.  No jantar eu preparei  um ensopado  de  carne seca de capivara com mandioca, e  fritei  umas bananas. Comemos eu e Dingo. Jozsef tomou apenas  o chá.  Passamos a noite na margem, mas de madrugada  resolvi  sair remando.  Passei o rio Riozinho e a velocidade aumentou. O  volume de  águas  negras  aumentou  muito. Remei o  dia  todo  e  Jozsef continuava  febril;  mas comeu um pouco de arroz  com  peixe.   Á tarde nós passamos  pelo  povoado Eldorado.  Sabia  que  se  remasse bastante estaríamos em Jutaí no dia seguinte. Preparei mais peixe para o jantar e novamente apenas Dingo me fez companhia. A  noite Jozsef me ajudou um pouco e ai eu pude dormir. Ele me acordou  de madrugada, pois estava com muito frio. Entrou num sleeping e  foi dormir. Chegamos á Jutaí com o nascer do sol. Amarramos o barco e fomos  à delegacia pedir ajuda para Peter O delegado disse que  não tinha meios de pedir ajuda, e que poderíamos conseguir algo com o  Pastor  John que  tinha rádio. Fomos para lá. O pastor soltou um S.O.S  e  nos disse que a tarde falaria com a sede em Tabatinga e pediria ajuda.  Levei Jozsef ao farmacêutico, já  que lá não tinha medico.
Diagnostico: Malária, Tifo e Hepatite.
Misturou uma série de remédios e recomendou repouso absoluto.  Encontramos o prefeito Sr. Francisco Moura e, ele colocou a casa do porto a nossa disposição.
Nos  instalamos  lá e Jozsef começou a tomar  seus  remédios.  Eu estava mais tranqüilo em terra firme, apesar de só poder sair  de la por água. Levei o barco para uma enseada atrás da cidade.  A tarde o delegado mandou chamar-nos para depor. Ele registrou  o desaparecimento  de Peter e colheu nosso depoimento. Alegou  não ter meios materiais de nos ajudar, pois não dispunha de barco  e nem de rádio. No depoimento de Jozsef o delegado solicitou  ajuda ao Pastor.
Jantamos na casa do Pastor e ele nos contou sobre a conversa  que tivera  com  sua  sede em Tabatinga pelo rádio. -  A  missão  não dispunha  de meios e apesar de terem solicitado ao exército  e  ao projeto  Radam,  não  seria possível no  momento  enviar  nenhuma ajuda, pois os aviões não eram próprios para longas distancias.  Na  volta  para casa encontrei Jocilene,  filha  do  prefeito, estava  sentada  num dos bancos de madeira da igreja  do  Pastor, ainda em construção. Ficamos conversando um pouco sobre a cidade, sobre  ela, sobre mim. Contou-me que tinha 13 anos,  estudava  no ginásio estava na segunda série, gostava de dançar, passava as  férias em Manaus, enfim a vida estava bastante ligada a Jutaí e  Manaus.  Disse-me  que  nas ferias em Manaus ela aproveitava  muito  mais; pois  lá  as  festas eram a noite toda e tinha  mais  opções  de paquera. Nisso chegou sua irmã Rosilene e o namorado que se apresentou.  Chama-se  Milton havia nascido ali e fora criado uns  tempos  em Manaus. Mas de tempos em tempos voltara a Jutaí.
Ficamos de papo até as 10 horas quando as luzes se apagaram.  Fui para casa dormir. O dia  amanheceu  chuvoso e assim ficou até a  tarde;  quando  o Pastor  veio  falar  que  tivera  novo  contato  pelo  rádio  com Tabatinga, mas não havia novidade sobre socorro.
Jozsef  estava  um pouco febril, e fiquei com ele a  noite  e  só dormi  após as luzes se apagarem. Dingo estava gostando muito  da cidade,  podia  correr pelas ruas e rosnar para os  outros  cães.  Dona Marilene, a mãe de Jocilene também gostou muito dele. Logo o prefeito veio falar comigo. Ele queria comprar o Dingo. Falei com Jozsef e ele ficou de pensar.
Jozsef estava melhor, comeu um pouco e até caminhou até o templo.  Eu estava ajudando o Pastor a colocar umas ripas no telhado  para completá-lo.  Jocilene  veio  falar comigo,  me  convidando  para jantar  em sua casa. Fui com Jozsef e Dingo. O jantar a  base  de carne de porco e peixe estava delicioso. Dingo também comeu muito bem. Na volta para casa, Jozsef se confessou disposto a vender o Dingo para  o  prefeito.  Desde que  pudesse  passear  com o cão enquanto estivesse na cidade.
Falaríamos com o prefeito no dia seguinte. Chegou  um barco que estava indo para Letícia/Tabatinga. Com  ele veio  um  cabo para substituir o ajudante do delegado.  No  barco também vinha um rapaz americano que levou uma encomenda do pastor para Tabatinga. Jozsef aproveitou para escrever para um amigo  em New  Jersey  avisando do ocorrido, e que em alguns  dias  iríamos para  o  Rio  de Janeiro. O americano  enviaria  sua  carta  pelo correio de Tabatinga para os Estados Unidos.
Acertamos  com o Sr. Francisco o prefeito sobre a venda de  Dingo por  500 cruzeiros. Foi um bom negocio, e na hora certa, pois  já  estávamos   sem dinheiro. A tarde, Jozsef voltou a ficar  febril  e não  quis comer. Como estava muito calor, fui para o  Templo  que ficava no alto e pegava uma brisa gostosa. Jocilene veio me  ver.  Senti que ela estava me paquerando. Depois de algum papo ela sem dizer  nada  me deu um beijo na boca. Depois  não  queria  largar mais. Ficamos namorando até as luzes se apagarem, e sua irmã  vir busca-la.
Jozsef  se queixou que estava com dor de cabeça.  Verifiquei  sua testa  e notei que estava bastante febril. Dei-lhe 2 Melhoral,  e depois dormi. O delegado mandou me chamar logo cedo. Não tinha  nem  levantado ainda.  Queria fazer algumas perguntas. Estavam na  delegacia,  o delegado, seu ajudante e o cabo que chegara no dia anterior.  O delegado queria saber sobre um suposto rádio  transmissor  que tínhamos  no barco, antes de subir o rio. Expliquei-lhe  que  não  tínhamos nenhum rádio e que a antena do barco era  o  mastro que utilizávamos para içar a vela.
O cabo  contou-nos que quando subia o rio, ainda  não  sabia  de nada, e ouviu no porto de Tefé que alguns pescadores  encontraram corpo  de um homem com barba, mas já  bastante  mutilado  pelos peixes. O delegado  pediu-me  que  contasse novamente  sobre  o  dia  do  desaparecimento de Peter. Contei-lhe tudo novamente. Ele  mandou  chamar o Pastor e juntos foram ver Jozsef e interroga-lo. Logo  o delegado voltou e não parecia muito satisfeito.
Disse-me que Jozsef estava muito febril, e se recusou a responder as perguntas, dizendo que tudo o que tinha a dizer estava em  seu depoimento. Voltei para casa e encontrei Jozsef bastante febril. Disse-me que estava  com muita dor de estômago. Fui a casa de Jocilene  e  sua mãe  preparou  um  chá  que levei a Jozsef.  Ele  tomou  e  depois vomitou.   Dei-lhe  2  comprimidos  de  Melhoral  e  ele   dormiu delirando.
Logo  cedo fui conversar com o delegado e ele disse-me que  havia encerrado o seu relatório e que estava enviando ao seu comandante (PM) em Manaus. Seu ajudante seguiria hoje mesmo para Manaus, pois estava  saindo de  férias.  O ajudante levou também o passaporte e o  diário  de Peter
Jozsef havia melhorado um pouco e levei-lhe uma canja para comer.  Ele  saiu até a varanda da casa. Sob a luz do sol pude  ver  como estava  amarelo. Assustou-me muito. Comentei com o Pastor John e ele disse-me que poderia ser hepatite, muito comum na região.  Á  tarde eu passei conversando com as 2 irmãs  que  também  estavam preocupadas  com Jozsef. Uma prima das meninas que tinha  uns  20 anos e vivia nos paquerando, avisou-me que Jozsef estava tremendo muito.  Fui  lá  com Jocilene enquanto Rosilene foi  com  a  prima buscar  remédio  em casa. Jozsef tremia muito e dizia  frases  em húngaro misturado  com  inglês.  Pedi a Jocilene  que  chamasse  o Pastor.  Ele  veio  correndo  com  a  mulher.  Jozsef  continuava delirando.  O Pastor disse-me que ele chamava uma tal de  Paty  e falava  algumas coisas em húngaro que não dava para entender.  A mulher  do  Pastor aplicou-lhe algumas compressas e  deu-lhe  uma injeção, o que o acalmou. Ai ele dormiu.
Fiquei só  com  a prima de Jocilene. As  meninas  foram  para  o ginásio e o Pastor para o templo. Conversamos  sobre ela e o que fazia em Jutaí. Contou-me  que  se chamava  Ana,  nascera em Manaus, tinha 20 anos e morava  com  os pais.  O  pai era barqueiro e a mãe costureira,  já   terminara  o ginásio e sua vida agora era namorar e esperar um casamento.  Confessou  que se sentia atraída por mim, mas sua  paixão  estava sendo o  Jozsef.
Não dei muita importância para  sua  confissão,  pois Jocilene havia me alertado para as paixões da prima. Segundo ela, bastava ser estranho ou então ser seu namorado ou da irmã.  Ana era uma garota interessante, falava bastante, era  simpática, e um  tipo de morena de cabelos longos bem escorridos,  lembrando  os índios,  baixinha, cheinha, era bem o tipo regional, ao contrario   de  Jocilene  e  da  irmã,  que  eram  altas  e  esbeltas.  Ficamos conversando até  umas  9 horas quando Jocilene  chegou  e  ficou emburrada  por eu  estar tanto tempo sozinho com a  Ana.  Saímos  um pouco  e  Ana ficou com algumas colegas do ginásio  cuidando  de Jozsef.  Jocilene  continuou emburrada, e só depois  de  explicar muito, que a prima não me interessava e que ela me beijou.  Pela  manhã  Jozsef acordou febril, disse que  estava  com  muita sede.  Como não estava se alimentando bem, preparei-lhe um  leite em  pó. Ele tomou um copo grande, tomou também um antifebril  e depois  conseguiu sentar-se na rede. Continuava muito  pálido  e reclamando  de suas dores estomacais. Conversamos sobre Peter e disse-lhe  que  já  estava sem esperanças de  encontra-lo.  Jozsef concordou e estava agora preocupado com ele, sem dinheiro, doente e num  país  estranho.  Acalmei-o  dizendo  que  assim  que  ele melhorasse,  desceríamos  Até Manaus e de lá iríamos  de  carona até  o  Rio  de Janeiro, onde teríamos local para  ficar  e  ele entraria  em  contato com os amigos nos  Estados  Unidos  pedindo dinheiro. Ele passou o dia bem, até almoçou um pouquinho na  casa do  prefeito. Á  noite voltou a delirar  de  febre,  mas  tomou 2 antitérmicos e conseguiu dormir.
Estive  logo cedo na delegacia conversando com o  delegado  sobre uma possível ida para Manaus e depois Rio de Janeiro. No  entanto ele  disse  que deveríamos aguardar, pois o barqueiro  que  havia vindo  do  Rio Biá, dera informações  comprometedoras  envolvendo Jozsef e ele teria que ser novamente interrogado. Perguntei  quem era  o  barqueiro, mas o delegado se recusou a dizer. Fui  até  o porto  e  descobri que era o mesmo que havia  nos  rebocado.  Ele tinha  uma casa em Jutaí, e Jocilene me indicou como  chegar  lá.  Falei  com  ele  e apesar de acessível, se negou  a  mudar  seu depoimento  ao delegado. Disse-me que todo o pessoal da  casa  de seu Pedro desconfiava que Jozsef havia assassinado Peter.  Fiquei indignado apesar de já  estar achando a mesma coisa.
Quando  voltei,  Jozsef  estava delirando e tive que  lhe  dar  1 antifebril para acalma-lo. Ele tremia muito, apesar do calor que fazia  na  cidade. Precisava urgentemente  de  um  hospital.  Quando   ele   melhorou,   falei-lhe   que   o   delegado   queria interrogá-lo  e  ele ficou possesso. Já tinha dito tudo  e  não aceitava que o delegado o detivesse na cidade baseado apenas numa suposição. Jozsef  passou bem a noite, apesar de alguns lances  de tremedeira e delírio.
Acordou cedo e pediu-me café. Fui a casa de Jocilene e  levei-lhe café  com  biscoitos,  que  ele devorou  tudo.  Logo  chegou o prefeito,  o delegado e o pastor para o  interrogatório.  Pediram para  que  eu  fosse dar uma volta. Fui até  o  templo  e  fiquei conversando com Jocilene. Ela pediu-me que eu a auxiliasse  numas lições de inglês do ginásio. Ficamos lá até o Pastor chegar.  Ele disse-me  que Jozsef repetira o interrogatório  anterior  negando ter assassinado Peter. O Pastor disse-me também que achara Jozsef bastante  abatido  e  que mandaria uma sopa para  o  almoço.  Fui almoçar  com ele e depois eu e sua esposa fomos levar  a  comida para  Jozsef.  Ele  comeu um pouco, depois  recusou  o  restante.  Jozsef  estava  com  um ar estranho,  sombrio,  perguntei-lhe  se estava tudo bem. Ele respondeu-me que sim, que apenas estava  sem fome e com sono. Disse-nos que dormiria um pouco.
Saímos, e encontramos o Pastor no templo. Ajudei-o a pregar algumas ripas no telhado de zinco e depois fui me encontrar com Jocilene.  Passeamos um pouco e depois encontramos Rosilene e o namorado  no templo. O templo não tinha paredes funcionava como praça, pois  o sol  fortíssimo,  e  as vezes as chuvas  repentinas  forçavam  as pessoas a procurar o abrigo do teto de zinco do templo. Ficamos  conversando  bastante, até que o tempo fechou  e  choveu durante  uma  meia hora torrencialmente. Depois  acalmou,  mais choveu  uma  hora  ainda. Já eram umas 5 horas  da  tarde  quando parou.  Combinei de jantar na casa de Jocilene as 6 horas  e  fui para casa tomar banho.
Jozsef não estava em sua rede. Imaginei que ele estava no  banho, pois a porta do banheiro estava fechada. Como estava tudo quieto, chamei-o varias vezes e não obtive resposta. Empurrei  a porta do banheiro e ela se abriu um pouco,  tornei  a empurrar e ela se abriu totalmente.
A cena era estarrecedora,  Jozsef estava pendurado pelo  pescoço.  Toquei  nele e ele estava frio. Sai correndo, encontrei  Jocilene no caminho e pedi-lhe que chamasse o Pastor, enquanto fui chamar o delegado. Quase não conseguia falar. Expliquei-lhe rapidamente, e  ele  saiu junto com o cabo, encontramos o pastor  no  caminho, pedi a Jocilene que avisasse seu pai e fomos todos para casa.  delegado entrou e examinou a cena. A cabeça caíra  para  trás, pois o nó do laço ficara na frente do seu pescoço. O banco  usado por Jozsef estava encostado em seu pé, mas, porque ao empurrar  a porta  ele havia encostado. O Pastor mandou buscar sua  câmera  e fotografou  a  cena. O delegado pediu-me que ajudasse a  tirar  o corpo  da corda. Foi improvisada uma mesa na sala e forramos  com um lençol. Colocamos o corpo de Jozsef na mesa e o delegado  com cabo passaram a examinar o corpo procurando sinais  de  outras  contusões.  Depois do exame “medico legal”, o delegado quis  todos os  pertences de Jozsef e Peter Era difícil dizer o que  era  de cada  um,  pois  usávamos tudo em  conjunto.  Separei  apenas  o essencial  para  mim:  mochila, barraca,  rede,  japona  militar, casaco de couro, saco de dormir,  alguma roupa, um facão, faca e alguns  utensílios. O restante foi levado para  a  delegacia  e  registrado  no inquérito. Logo começou a chegar gente para ver  o cadáver. Acho que toda a população passou lá para ver o Jozsef.  As pessoas iam se acomodando, algumas rezavam, outras mandavam os pêsames.  Jocilene ficara ao meu lado e só foi para  casa  dormir quando eu fui leva-la. As velas iluminavam o corpo a noite  toda.  As pessoas se revezavam e eu pude dormir de madrugada.  Acordei bem cedo com Jocilene me trazendo café. Levantei-me, lavei rosto e fui dar uma volta com Jocilene. Na volta  entramos  na delegacia  para  conversar  com  o  delegado.  Ele  disse-me  que precisava dos 500 cruzeiros encontrados no bolso de Jozsef (o  da venda  do  Dingo) para pagar o trabalho  dos  carpinteiros  para  fazerem o caixão, e o sepultamento.  Concordei, afinal o  dinheiro era de Jozsef.
Voltamos  para casa e já  estavam terminando o caixão  rústico  de madeira.  Ajudei-os  a  colocar o corpo no caixão  e  marcamos  o enterro  para  o final da tarde. O Pastor voltou com a  câmera  e fotografou  o corpo no caixão, e depois me pediu para posar  para uma foto, que ele disse-me mandaria para mim depois de revelada.  Caia uma chuva fina na hora do enterro. Muita gente acompanhou  e Dingo  parecia  muito triste. Jocilene disse que ele  não  comera direito. O padre e o Pastor encomendaram o corpo, e depois ajudei a  cobrir de terra. Saímos do cemitério e fui andar um pouco  com Dingo.
Á  noite fui a delegacia para completar o inquérito da  morte  de Jozsef.  cabo   anotou  meu  depoimento,  depois  de  revisto   eu   o  datilografei.
Jocilene estava preocupada, pois eu não fora  jantar e veio me procurar.
Fui  para  casa dormir mas, apesar de cansado custei a  pegar  no sono.  Na  escuridão eu relembrava a cena  de  Jozsef  pendurado, lembrava  de  Peter imaginava ele boiando no  rio  comido  pelos peixes. Foi uma noite de terror. Só adormeci pelo cansaço.  Pela  manhã fui falar com o Pastor, para vender as ferramentas  e conseguiríamos dinheiro para a passagem até Manaus. Ele disse-me  que falaria com a sede em Tabatinga pelo rádio e veria o que  poderia fazer por mim.
Enquanto  aguardava fui falar com Rosilene que iria a noite  para Manaus  com o pai. Fui a sua casa, ela estava fazendo as unhas  e cortando  o  cabelo com sua mãe. Aproveitei fiz a barba  que  não fazia há 2 meses e pedi a mãe das meninas para cortar meu  cabelo.  Ela cortou e disse que enterraria uma mecha atrás da porta,  pois assim  ela teria a certeza que eu voltaria para lá um  dia,  para casar com sua  filha.
Deixei-a fazer suas mandingas, pois  não  acreditava mesmo.  Jantamos juntos, e conversando com o prefeito, soube que ele ia a Manaus  tentar conseguir verba para construir um porto  melhor  para  a cidade. O barco chegou a meia-noite nos despedimos do Dr. Francisco e  de  Rosilene. Prometi   visitá-la  em Manaus, e  ela  me  deu  seu  endereço Jocilene ficou triste com a irmã, ela  também  gostaria de ir.
Pela  manhã chegou uma corveta da Marinha e parou ao largo,  pois  não podia se aproximar devido a pouca profundidade do porto.  Veio uma barcaça com alguns fuzileiros, um tenente e um sargento.  Estavam  vacinando  as populações ribeirinhas. Contamos  sobre  o  caso de Peter e Jozsef. O tenente prometeu subir o rio Jutaí e procurar. Deixaram uma caixa de medicamentos com Pastor e seguiram, subindo o Rio Jutaí.
Fui à delegacia conversar mais um pouco com o delegado. Ele  estava  examinando  a bagagem do Jozsef.  Suas  revistas  de “Black Beld” caratê, suas flechas e estrelas de Shaolin.
Jocilene passou pela delegacia e fomos para sua casa. Deixei-a e fui dormir um pouco.
Tomei  o café da manhã na casa do Pastor, ele me deu  o dinheiro das  ferramentas,  e  um  livro de bolso do  novo testamento  com  uma dedicatória em Inglês “Nos veremos no paraíso”. Falei-lhe  que  doaria  meu barco à igreja e  ele  ficou muito contente.
Encontrei  Jocilene  no templo e saímos para  namorar  um  pouco, depois fomos a sua casa almoçar. Jocilene  já  estava ficando triste com a minha  partida.  Aquela menininha  sapeca  com  seus 13 anos  bem  maduros,  como  muitas meninas da região que aos 12 ou 13 anos já pensam em casar e  teríamos filhos.  Jocilene não queria ser como suas amigas do ginásio  que no  máximo  no ano seguinte estariam casadas ou com  filhos.  Ela queria  estudar  e  depois ir para Manaus, e  quem  sabe  um  dia conhecer o Rio de Janeiro e São Paulo. À  noite  fui leva-la ao ginásio e ela não  quis  entrar, queria ficar  comigo,  aproveitar os últimos  momentos  que passaríamos juntos.
Quarta-feira seria o ultimo dia que eu passaria na cidade.
Comecei  a me despedir das pessoas com quem havia  convivido nos últimos dias. Falei com o padre, com o dono do  armazém, com o Milton, Ana, com pessoal do porto, com o pessoal do ginásio, com o pastor,  sua mulher e seus filhos. O Pastor me deu mais 100 cruzeiros para ajudar na viagem. Almocei em sua casa e conversamos um pouco sobre suas atividades.
Passei  a tarde com Jocilene e sua mãe D.  Marilene; ela lembrou me que ela aguardava minha volta, pois tinha enterrado meus cabelos.  Eu lhe prometi que se aquilo funcionasse eu voltaria.
Fui  a delegacia combinar com o delegado nossa ida e  depois fui namorar.  Jocilene  me abraçou e me beijou muito. Dizia que  não queria me perder. Pedia que eu voltasse. Deixei-a em casa com a promessa de que nos veríamos um dia. De madrugada o barco chegou. Nós embarcamos, eu e o delegado para uma viagem que levaria 3 dias até Manaus. Para mim estava se encerrando uma aventura que não planejara.
Ela simplesmente entrara em minha vida.


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